CORRE CASCÃO!! É O PowerWash Simulator 2 | Análise

Por
Rômulo de Araújo
Editor Chefe
Email: romulo@supernovas.gg
- Editor Chefe
10 Minutos de leitura
7.9 BOM
POWERWASH SIMULATOR 2 + DLC ADVENTURE TIME

O PowerWash Simulator original foi um dos acidentes bem-sucedidos mais improvável da última geração. Um jogo sobre limpar superfícies com uma mangueira de pressão não tinha razão objetiva para funcionar e, ainda assim, acumulou mais de 17 milhões de jogadores, entrou no Game Pass e transformou um estúdio britânico de work-for-hire numa desenvolvedora capaz de autopublicar sua própria sequência. A FuturLab tinha uma fórmula que funcionava, e ninguém pediu que ela fosse reinventada. Lembrando que essa não é a desculpa perfeita para estar realizando as tarefas reais de lmpeza…

Então o estúdio fez exatamente o que devia. E também acrescentou uma sala que ninguém precisava.

Minha vez com o primeiro jogo foi em VR, e confesso que é difícil de voltar para a flat screen se tratando dessa franquia. É por isso que este segundo jogo clama por uma versão em realidade virtual. Eu juro que talvez, para alguns de vocês, esse tipo de jogo não passe de alguma espécie de meme, mas cuidado com as palavras. Você pode entrar neste jogo e ficar preso por horas e horas… Mas precisamos falar mais sobre ele como sequência.

A Mangueira Que Não Precisava de Conserto

A estrutura central de PowerWash Simulator 2 é idêntica à do original, e isso é deliberado. Você chega num ambiente absurdamente imundo, aponta a mangueira de pressão e passa os próximos quarenta minutos transformando crosta em superfície reluzente. O loop não mudou porque não havia motivo para mudar.

O que a FuturLab fez foi afinar o que já existia. O sistema de sabão do primeiro jogo, que exigia trocar manualmente o produto de limpeza para cada superfície e ainda repor o estoque, foi eliminado quase sem cerimônia.

Os efeitos visuais de limpeza foram refinados: a sujeira escorrega das superfícies com mais fluidez, a água reage melhor à topografia do cenário e a sensação tátil de “antes e depois” está mais pronunciada. São melhorias invisíveis no papel que aparecem nas primeiras horas de jogo sem que você consiga nomear o que está diferente.

OS 38 Trabalhos DE SABÃO CRÁ-CRÁ

A campanha conta com 38 missões de carreira com escopo variado. Você limpa scooters de mobilidade reduzida, banheiros públicos, coretos, mansões abandonadas, dirigíveis e uma mansão com decoração canina. Algumas missões têm múltiplos estágios, onde limpar uma área específica revela um novo setor do mapa. A ideia é sólida e entrega o tipo de escalada gradual que o gênero precisa para não se tornar rotina antes da segunda hora.

O cooperativo foi expandido de dois para quatro jogadores online, com progressão e recompensas iguais para todos os participantes, e ganhou um modo de tela dividida para co-op local. A adição de tela dividida parece óbvia mas demorou uma sequência inteira para aparecer, o que diz algo sobre quanto a FuturLab subestimou o apelo doméstico do primeiro jogo.

A árvore de upgrades existe para dar uma ilusão de progressão RPG ao loop. Na prática, boa parte das melhorias é indiferente ou, pior, inferior às opções base disponíveis desde o início. A comunidade no Steam foi direta: a maioria dos upgrades são inúteis para qualquer jogador com experiência mínima no gênero. O sistema parece uma concessão ao manual de design de produto moderno, que pede progressão visível, sem compromisso real com a utilidade do que está sendo desbloqueado.

O Problema Chama-se Base Pessoal

A grande novidade estrutural do jogo é a Base Pessoal, um espaço entre missões onde o jogador pode comprar móveis, limpá-los e decorar os cômodos conforme avança na campanha. A intenção era criar pertencimento e ancoragem narrativa, algo que o primeiro jogo realmente não tinha.

O resultado é um sistema de decoração com controles ruins, espaçamento exagerado entre itens, impossibilidade de alinhar móveis com as paredes e ausência de um grid funcional. Você não consegue empilhar objetos, os cômodos têm mais portas e janelas do que paredes utilizáveis, e o feedback visual de quando um item vai ou não ser posicionado é inconsistente.

A ironia é que a Base Pessoal também introduz objetos para limpar, o que cria um loop funcional. Mas a parte de limpar funciona. A parte de decorar não. É uma feature que deveria ter chegado com mais um ciclo de polimento e, em vez disso, virou a primeira coisa que a comunidade pediu para corrigir logo após o lançamento.

O Silêncio É Parte do Produto

PowerWash Simulator 2 não tem trilha sonora original. Isso não é esquecimento nem corte de orçamento: é uma decisão de design que o primeiro jogo já havia tomado e que a sequência manteve com convicção. O loop de limpeza funciona precisamente porque deixa o cérebro sem competição auditiva; o som da água sob pressão, o chiado de superfície limpa e o ping de confirmação quando uma área está 100% concluída constroem um ambiente sonoro que o estúdio identificou como parte central da experiência.

Para quem entra esperando algo para ouvir enquanto joga, a ausência incomoda. Para quem entende a proposta, o silêncio é exatamente o ponto. Para quem não entende, a gente vai de podcast Supernovas e faça isso você também ou eu vou pessoalmente colocar alvejante em seu café.

Cascão não aprova, mas você sabe quem aprova?

PowerWash Simulator 2 é um jogo que sabe exatamente quem quer agradar e não perde tempo tentando convencer quem não faz parte desse público. O loop de limpeza está mais refinado, o cooperativo está mais generoso, o catálogo de missões está mais variado e a remoção do sistema de sabão elimina o único atrito real do primeiro jogo sem deixar rastro.

A Base Pessoal é um tropeço de ambição mal executada que a FuturLab está corrigindo aos poucos via patches, mas que não deveria ter chegado nesse estado. A árvore de upgrades existe mais para preencher uma expectativa de gênero do que para acrescentar decisão real. E o jogo ainda não recuperou a opção de remapear teclas que o original tinha, uma regressão inexplicável que a comunidade lembrou imediatamente.

Se o primeiro PowerWash Simulator te deu as melhores vinte horas de descanso ativo que um jogo já entregou, o segundo vai fazer o mesmo com mais quartos, mais cordas, mais superfícies e quatro pessoas esguichando juntas num sofá. Se o conceito nunca fez sentido para você, não faz agora.

Adventure Time e a expansão que faz mais sentido do que parece

A primeira DLC de PowerWash Simulator 2 encontra um encaixe quase irritante de tão óbvio. Adventure Time não só combina com a lógica relaxada do jogo como também dá à FuturLab a desculpa perfeita para abandonar a estética de sujeira genérica e brincar com superfícies que já nascem absurdas. A Terra de Ooo, nesse contexto, vira o tipo de cenário que aceita bem a fantasia de limpeza metódica sem precisar fingir realismo nenhum.

O pacote leva o jogador por cinco áreas novas, incluindo a casa da árvore, o castelo do Rei Gelado, Pizza Sassy’s e veículos do Reino Doce. A graça não está apenas no fan service, mas no modo como a DLC reinterpreta o próprio ato de limpar. Em vez de repetir o repertório visual da campanha principal, ela assume uma paleta mais cartunesca e adaptada ao universo da série, o que ajuda a expansão a parecer menos um add-on preguiçoso e mais uma variação honesta do conceito.

Ainda assim, ela continua sendo PowerWash Simulator 2. Quem espera uma mudança estrutural vai encontrar mais do mesmo, só que com o verniz certo. A DLC funciona porque sabe exatamente onde encosta: pega um jogo cuja força está na repetição controlada e injeta nele um universo que também entende o valor da recorrência, da idiotice carismática e da fantasia sem obrigação de parecer madura.

O resultado é um conteúdo que não tenta roubar a cena da campanha principal, mas reforça a tese do jogo base. PowerWash Simulator 2 é menos sobre surpresa e mais sobre execução. Adventure Time entende isso melhor do que muita expansão que se vende como evento. Aqui, pelo menos, a sujeira tem personalidade.

Agradecemos a produtora do jogo por nos ceder a chave para análise do jogo e a sua DLC
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Rômulo de Araújo

Email: romulo@supernovas.gg

POWERWASH SIMULATOR 2 + DLC ADVENTURE TIME
BOM 7.9
SCORE 7.9
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