REVIEW: Subversive Memories e o Terror de uma Época que Não Pode Ser Esquecida

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8.5 MUITO BOM!
Subversive Memories

Sentar-se diante de Subversive Memories é aceitar um convite para um tipo de desconforto que o videogame brasileiro raramente explorou com tamanha precisão cirúrgica. O título, assinado pelo desenvolvedor Akira (Southward Studio), opera em uma frequência de rádio antiga, como se a todo momento fosse possível perceber que há um chiado constante, uma interferência entre o que lembramos e o que nos foi escondido. Ao assumirmos o controle de Renata, somos imediatamente jogados para dentro de um cenário que exala um cheiro muito específico de café passado e poeira acumulada em estantes de madeira pesada. O jogo se inicia com um mergulho em memórias que parecem retiradas de um álbum de fotografias desbotadas, onde o cotidiano da década de 1970 é reconstruído através de detalhes que tocam o jogador pelo afeto e pelo reconhecimento imediato.

A arquitetura das casas, com seus quintais de piso mosaico e aquele caquinho cerâmico que desenha o chão de tantos lares brasileiros, estabelece um contrato de confiança com quem joga. O filtro de barro no canto da cozinha e a imagem do avô de Renata, vibrando com a final da Copa do Mundo contra a Itália em 1970, constroem uma normalidade que chega a ser acolhedora. Entretanto, essa segurança é propositalmente frágil. A atmosfera do jogo, densa e carregada, utiliza o pano de fundo da Ditadura Militar para transformar o ambiente doméstico em um labirinto de significados ocultos. A transição entre a paz de uma tarde de futebol e o vazio deixado pelo desaparecimento é conduzida com uma elegância que dispensa o choque gratuito, preferindo a construção de uma angústia que se acumula a cada corredor percorrido sob os ângulos rígidos da câmera fixa.

Essa escolha técnica, que remete aos pilares do survival horror como o primeiro Resident Evil e Alone in the Dark, encontra aqui um propósito que transcende a mera nostalgia estética. A câmera fixa impõe uma limitação visual que transparece o clima de vigilância e censura da época; o jogador move-se livremente, mas está sempre sob uma perspectiva que ele não controla, sugerindo que há sempre um olhar invisível monitorando seus passos. O inventário limitado e a necessidade de gerenciar recursos transformam a sobrevivência em uma tarefa burocrática e tensa, forçando o jogador a pesar o valor de cada item em um mundo onde a escassez era uma ferramenta de controle psicológico.

A beleza visual de Subversive Memories é um dos seus maiores trunfos. Mesmo apostando em uma estética retrô 3D de baixa poligonalidade, o jogo apresenta uma pixel art e um trabalho de texturização primoroso. A iluminação deixa de ser um detalhe cosmético, para passar a ditar o tom da narrativa e do medo. É um jogo que, a cada passo dado, provoca um embrulho no estômago, e não necessariamente por algum jump scare, mas por saber de toda a história do Brasil durante esse período. O objetivo deixa de ser o que conhecemos em jogos de terro, como apenas assustar com criaturas, e passa a evocar a  vergonha histórica de ter existido uma ditadura militar no Brasil. É um horror que nasce da realidade, do peso dramático de saber que aqueles corredores virtuais ecoam gritos que foram reais.

A sobrevivência se manifesta de forma mecânica através de uma lanterna, que serve tanto como guia quanto como única defesa. Em locais onde a escuridão parece sólida, o feixe de luz é a ferramenta para enfrentar sombras que guardam os locais – almas perturbadas, possivelmente de ex-militares, que nunca encontraram paz e permanecem presas a uma carga dramática insuportável. O combate exige nervos de aço: a sua “arma” é a sua lanterna, que tem bateria limitada e permite apenas alguns flashes de luz. O jogador precisa saber exatamente quando disparar o feixe para atordoar ou dissipar as sombras, poupando energia para o próximo encontro inevitável. Da mesma forma, os analgésicos encontrados pelo caminho são extremamente raros, tornando o gerenciamento de danos uma preocupação constante que mantém o jogador em um estado de vulnerabilidade permanente. Além disso, o jogo conta com salvamentos manuais em salas espalhadas pelo mapa, mantendo ainda mais o clima de tensão em caso de morte.

O ponto em que Subversive Memories realmente se descola de suas inspirações internacionais é na forma como utiliza a mediunidade de Renata como engrenagem central. Em vez de encontrarmos documentos e cartas que explicam convenientemente a trama, nos deparamos com o vácuo deixado por aqueles que foram silenciados pelo Estado. Como as vítimas desapareceram sem deixar registros oficiais, a narrativa depende das “velas”, itens consumíveis que permitem a Renata estabelecer contato com as vítimas da tortura. O jogador precisa decidir onde e quando usar essas velas para escavar o passado, um processo de exumação espiritual que dá rosto e voz aos que foram apagados pela história.

Essa conexão com o além não é um artifício aleatório; o jogo trabalha profundamente com o espiritismo ao revelar que Renata pertence a uma linhagem de médiuns. Essa herança familiar justifica a naturalidade – e o fardo – com que ela transita entre o mundo carnal e o espiritual. Ao explorar essa sensibilidade herdada, o roteiro consegue dar um propósito maior à exploração: Renata não é uma protagonista de um jogo de terror convencional, ela só está cumprindo um papel ancestral de dar passagem e voz aos espíritos que a política tentou enterrar. Essa camada de crença e espiritualidade brasileira traz uma densidade que torna a jornada muito mais pessoal e mística.

A construção do mundo é enriquecida por colecionáveis muito criativos desde sua concepção. Durante a exploração, encontramos cartas ilustradas com animais do “jogo do bicho”, impressas em versos de maços de cigarro antigos. O jogo do bicho era uma diversão comum e uma rede de influência que envolvia inclusive setores militares, e encontrar essas cartas traz um refresco interessante para além da progressão da história. Além disso, cartazes espalhados pelos cenários misturam um humor ácido com mensagens puramente opressoras, capturando o espírito da propaganda da época e a tensão constante de se viver sob um regime implacável.

Existem passagens de rádio tão autênticas que o jogador pode esquecer, por um momento, que está em uma obra de ficção. O chiado, as vozes distantes e os anúncios de época colaboram para uma imersão total. Embora a campanha principal seja relativamente curta, podendo ser finalizada em cerca de três horas, o fator replay é gigantesco. Justamente por causa da mecânica das velas e da natureza não-linear de algumas descobertas, o jogo convida o jogador a retornar para buscar novos finais e entender as histórias ocultas que ficaram para trás na primeira jogada.

Quanto mais eu jogava Subversive Memories, mais eu notava uma versatilidade narrativa rara. Se retirássemos os elementos de combate e a pressão do survival horror, o título ainda assim funcionaria perfeitamente como um adventure point-and-click com nuances de metroidvania. O design de níveis, que exige idas e vindas para desbloquear segredos da família de Renata, é tão bem amarrado que a curiosidade do jogador se torna o combustível principal, superando até o medo.

A pesquisa do criador demonstra um enraizamento profundo nas questões brasileiras. Ao trazer elementos como a base militar de Osasco e a trajetória de resistência de figuras como Lamarca e exploração de terras indígenas para dentro do gênero de terror, o desenvolvedor consegue tratar a história nacional com a gravidade que ela exige, sem abrir mão do entretenimento. O jogo flui como uma crônica sobre a permanência das feridas; ele entende que a ditadura ultrapassou por muito qualquer discussão polarizada política para ser uma experiência sensorial que mudou a forma como as famílias se olhavam e como o silêncio se instalou nas salas de estar brasileiras até mesmo décadas após o seu fim.

Subversive Memories entrega uma jornada que permanece na mente muito depois de os créditos rolarem. É um recorte da nossa própria identidade nacional, embalado em gráficos que evocam a imperfeição da memória humana. Ao explorar os horrores da opressão através das lentes do sobrenatural e do doméstico, o título já se crava como um expoente do cenário independente brasileiro. Ele nos obriga a encarar o fato de que o passado, por mais que tentemos enterrá-lo sob os pisos de mosaico e as glórias esportivas, sempre encontrará um meio de emergir. Sobreviver aqui é lidar com o peso de memórias apagadas, tornando o jogo um acerto de contas necessário com a nossa própria história.

Deixo o meu agradecimento especial à equipe da Southward Studiopelo envio da chave antecipada, permitindo este mergulho profundo em uma obra tão necessária. Subversive Memories chega oficialmente ao PC dia 8 de abril, disponível na Steame, para a alegria dos entusiastas da portabilidade, o título já conta com suporte total para o Steam Deck.

Subversive Memories
MUITO BOM! 8.5
NOTA 8.5
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