A fumaça de um cigarro barato mistura-se ao vapor azulado que emana das tubulações de Éter, criando uma névoa densa que envolve os arranha-céus de uma Nova York suspensa entre as nuvens e o abismo.
Existe algo de profundamente hipnótico na forma como Aether & Iron se apresenta ao jogador, evocando uma nostalgia por tempos que residem no imaginário coletivo de quem cresceu entre as páginas de romances policiais e as telas de cinema clássicas. Desde que Disco Elysium redefiniu as fronteiras do RPG narrativo, o gênero aguardava por um sucessor que possuísse a coragem de abraçar o peso da palavra escrita com tamanha convicção. Este título, lançado agora em 2026, passa a ocupar esse vácuo com muita precisão.

A ambientação pertence ao subgênero decopunk, uma estética que celebra a opulência dos anos 1930 enquanto a funde com uma tecnologia retrofuturista movida pelo Éter. Essa substância química milagrosa permitiu à humanidade erguer cidades inteiras rumo aos céus, mas o custo social revela-se em cada esquina de metal e ferrugem. O cenário consiste em uma colcha de retalhos de elegância e podridão. De um lado, temos os Barões, a elite que vive em torres Art Déco que brilham sob um sol eterno. Do outro, os “Ratos do Éter”, engenheiros e operários confinados nos poços tecnológicos sombrios, responsáveis por manter as engrenagens da metrópole em funcionamento enquanto respiram os resíduos tóxicos da prosperidade alheia.

Neste tabuleiro de desigualdade extrema, assumimos o controle de Gia. Ela carrega a essência do contrabandista desgastado pela vida, alguém que já perdeu muito mais do que gostaria de admitir em um trabalho que deu errado no passado. Gia apresenta-se como uma protagonista cínica, cuja armadura emocional é forjada em sarcasmo e uísque de segunda categoria. Sua jornada começa de maneira trivial, com uma tarefa de transporte que rapidamente escala para uma conspiração política capaz de fragmentar as bases daquela sociedade voadora. Ao seu lado, encontramos Nellie, uma cientista acadêmica protegida pela bolha da elite, cuja ingenuidade serve como o contraponto -e orelha do jogador para esse mundo- perfeito à aspereza de Gia. A dinâmica entre as duas, somada à presença de Cress, uma mecânica resiliente que personifica a força da classe trabalhadora, forma o núcleo emocional que sustenta as quase quinze horas de campanha.
A excelência da escrita manifesta-se em cada linha de diálogo. Existe uma precisão cirúrgica na forma como o roteiro é construído, apresentando um ritmo narrativo que alterna entre a melancolia contemplativa e o impacto seco de um soco no estômago. Através da narração interna de Gia, o jogador sente-se imerso em um fluxo de consciência que transforma cada cenário em uma pintura viva – e de fato é!. Os desenvolvedores optaram por uma abordagem artística onde a estática ganha vida através da qualidade das ilustrações feitas à mão. Cada área visitada assemelha-se a uma obra de arte detalhada, evocando os jogos de aventura dos anos noventa que dependiam da imaginação para construir imersão. A escolha por poucas animações complexas permite que a atenção do jogador permaneça focada na força da narrativa e na atmosfera densa.

O sistema de jogo repousa sobre a fundação de RPGs clássicos, utilizando rolagens de dados para determinar o destino das interações sociais. Cada conversa representa um campo de batalha potencial, onde investir em atributos como Charme, Intimidação ou Intelecto define as rotas disponíveis. O brilho desse sistema reside na aceitação do erro. Em Aether & Iron, o fracasso em uma rolagem de dados constitui um evento narrativo tão rico quanto a vitória. Uma mentira mal contada ou uma tentativa de suborno que termina em detenção servem apenas para desviar a história por caminhos inesperados, reforçando a sensação de que o mundo reage às imperfeições do jogador. Existe uma filosofia clara de que o destino é algo que se molda tanto pelos acertos quanto pelas cicatrizes de erros.

Quando as negociações falham e o chumbo precisa falar mais alto, o jogo introduz sua mecânica mais inovadora: o combate de veículos por turnos. Em vez de duelos individuais padrões, as batalhas ocorrem em arenas lineares que representam as rodovias aéreas de Nova York. Cada membro do grupo controla seu próprio automóvel modificado, gerenciando pontos de ação para trocar de faixa, colidir contra oponentes ou disparar armamentos pesados. O sistema exige pensamento estratégico, pois as arenas contam com perigos ambientais como detritos flutuantes, trechos de estrada colapsando a cada turno e tráfego de civis que podem se tornar danos colaterais. A customização na garagem permite que cada carro se torne uma extensão da personalidade de quem o dirige, com peças que afetam desde a blindagem até a velocidade de manobra.

A temática do jogo aborda a desigualdade social de forma direta e visceral. Em uma das cenas mais impactantes do primeiro ato, presenciamos um desfile oficial de um Barão que termina em tragédia quando um manifestante arremessa um coquetel Molotov. A resposta da autoridade consiste no uso imediato de uma arma de energia que incinera tanto o agressor quanto o quarteirão ao redor repleto de inocentes, demonstrando o valor nulo da vida humana diante da manutenção do poder. Aether & Iron honra o sufixo “punk” de seu gênero ao questionar as estruturas de exploração e a ganância corporativa, utilizando a história fictícia de Nova York como um espelho para as tensões econômicas da realidade.

A produção sonora merece um capítulo à parte. A trilha composta por temas de jazz dos anos 1930 mescla-se a orquestrações grandiosas que evocam o trabalho de mestres como Jerry Goldsmith. A música consegue alternar entre a melancolia de um saxofone solitário em um beco chuvoso e a urgência de uma perseguição em alta velocidade. O trabalho de dublagem atinge um patamar de qualidade raramente visto na indústria. A dublagem de Rhiannon Moushall entrega uma interpretação magistral como Gia, capturando todas as nuances de sua amargura e de seu humor ácido. As vozes de Nellie e Cress complementam o elenco com uma profundidade emocional que humaniza personagens que poderiam ser apenas clichês.
A exploração do mundo ocorre por meio de um sistema de “point-and-click” que prioriza a investigação de cenários e a coleta de evidências. Cada localidade, seja o Porto de Carga de White Street ou os bares decadentes do submundo, possui segredos que podem ser usados para chantagear NPCs ou abrir novas opções de diálogo. O gerenciamento de inventário exige que o jogador equilibre itens de missão, consumíveis de cura e peças sobressalentes para os carros. Essa camada de gerenciamento adiciona um peso logístico à jornada, fazendo com que cada incursão pelos níveis mais baixos da cidade pareça uma expedição arriscada onde os recursos são finitos e valiosos.

A progressão de personagem unifica habilidades sociais e de combate em uma única árvore de talentos, uma escolha de design que gera dilemas constantes. Optar por aumentar a proficiência em armas automáticas significa abdicar, momentaneamente, da capacidade de detectar mentiras em conversas cruciais. Essa interdependência força o jogador a especializar Gia ou a confiar nas habilidades específicas de seus companheiros de equipe, que trazem bônus passivos quando presentes no grupo. Confesso que de início, esse sistema me causou uma certa confusão devido à sobreposição de talentos, mas com o tempo, fui recompensado com o planejamento a longo prazo e a sinergia entre os tripulantes dos veículos.

No aspecto técnico, a execução de Aether & Iron demonstra um polimento notável para um projeto de seu porte, apresentando um desempenho estável mesmo em sessões prolongadas. A interface de usuário, embora estilizada com elementos industriais pesados, mantém a clareza necessária para a navegação rápida entre menus de customização e mapas. Pequenos bugs de colisão nas batalhas de carros ocorrem ocasionalmente, e problemas de carregamento inicial de um save mais longo também trouxeram algumas dores de cabeça, mas a frequência desses episódios permanece baixa o suficiente para evitar a frustração. Pude testar o suporte completo a controles modernos que também garante uma experiência fluida, independentemente da forma escolhida para o gameplay.

A estrutura narrativa ramificada garante uma longevidade que justifica o investimento de tempo. Terminar a história principal revela apenas uma fração das consequências possíveis para Nova York e seus habitantes. Aliar-se aos sindicatos operários em vez de colaborar com os investigadores do governo altera radicalmente o estado final do mundo e o destino dos companheiros de Gia. Essa reatividade transforma o jogo em um exercício de ética pessoal, onde as motivações do jogador pesam tanto quanto suas estatísticas. Cada nova partida oferece a oportunidade de testar abordagens opostas, explorando as áreas cinzentas de um roteiro que evita julgamentos morais simplistas.
O título estabelece-se como um marco para o cenário de RPGs em 2026 ao equilibrar a densidade de um romance de mistério com a interatividade de um simulador tático de combate veicular. A complexidade dos sistemas de jogo serve à história, criando um ciclo de jogabilidade onde cada diálogo prepara o terreno para um confronto e cada batalha abre portas para novas revelações políticas. O foco total na ambientação e na qualidade das atuações vocais eleva o projeto acima de competidores que priorizam gráficos fotorrealistas em detrimento da substância narrativa. Trata-se de uma obra coesa que entende suas limitações orçamentárias de um título independente e as transforma em escolhas estilísticas marcantes. E quer saber? Jamais teríamos a capacidade de ver algo desse tipo pelas mãos de um estúdio AAA por inúmeros motivos. O acerto da parceria entre a Seismic Squirrel e Chaos Theory Games já se tornou um dos grandes momentos do cenário independente de 2026.

A experiência final de Aether & Iron reside na satisfação de dominar um sistema de regras que recompensa a curiosidade e a atenção aos detalhes. O jogo entrega uma campanha sólida, com um ritmo que respeita a inteligência do público e oferece recompensas tangíveis para quem decide mergulhar em sua lore profunda. A combinação de mecânicas de dados, customização de carros e árvores de diálogo ramificadas resulta em um produto final que possui identidade própria e execução competente. Para quem valoriza o controle sobre o rumo da história e a profundidade de sistemas, este RPG representa uma das propostas mais completas e originais da safra atual.


