Review | BRAVELY DEFAULT FLYING FAIRY HD Remaster -Um remaster que expõe virtudes e defeitos com a mesma honestidade

Por
Rômulo de Araújo
Editor Chefe
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- Editor Chefe
18 Minutos de leitura
8.2 MUITO BOM
BRAVELY DEFAULT FLYING FAIRY HD Remaster

Poucos JRPGs da última década envelheceram de maneira tão curiosa quanto BRAVELY DEFAULT. O original saiu no 3DS no Japão em 2012 e chegou ao Ocidente em 2014, carregando nas costas a ambição de recuperar uma linhagem clássica da Square Enix que havia ficado difusa entre experimentos, desvios e alguma perda de identidade. A nova edição em HD preserva esse projeto quase inteiro: a estrutura de base continua a mesma, o sistema central segue brilhante e o grande problema do jogo continua sentado no meio da sala, sem nem tentar se esconder.

Isso faz do remaster uma edição muito fácil de recomendar e um jogo muito menos fácil de absolver. A parte excelente segue excelente. A parte cansativa continua convencida de que a insistência por si só produz grandeza. Às vezes produz. Às vezes só produz cansaço com boa trilha sonora.

Há uma tentação previsível em tratar Bravely Default como relíquia de um momento em que o JRPG “voltou a se encontrar”. A leitura é cômoda, mas curta demais. O jogo importa porque faz mais do que acenar para o passado. Ele reorganiza fundamentos do gênero com confiança real, cria um sistema de combate que ainda hoje parece engenhoso e sustenta uma identidade visual que envelheceu melhor do que muito RPG mais caro, mais vistoso e infinitamente mais esquecível. Também importa porque fracassa de um jeito muito particular. E fracasso interessante costuma ensinar mais do que sucesso burocrático.

Voltar a Flying Fairy hoje, em PC, deixa essa contradição mais visível. O conforto melhora. A apresentação ganha folga. O contato com menus, ritmo e leitura de combate fica mais direto. Só que nada disso suaviza a decisão estrutural que faz a campanha perder força justamente quando deveria crescer. O remaster, nesse sentido, não reescreve o jogo. Ele o apresenta com iluminação melhor. Conveniente para os acertos. Implacável com o resto.

O velho impulso da Square

Quando Bravely Default apareceu, a Square Enix estava mexendo numa ferida que ela mesma abriu. O jogo nasceu do terreno preparado por Final Fantasy: The 4 Heroes of Light e assumiu sem rodeios o desejo de revisitar o imaginário dos antigos Final Fantasy: cristais elementais, classes, vilas, reinos à beira do colapso, mapa-múndi, combate por turnos e aquela sensação de aventura que cresce aos poucos, sem precisar transformar cada conversa numa declaração de importância histórica.

A diferença é que Bravely Default não opera só como lembrança educada. Ele entende que reverenciar o passado costuma ser a forma mais preguiçosa de desperdiçá-lo. Por isso, o jogo pega peças familiares e lhes dá função nova. O gesto mais inteligente está justamente no combate, mas ele aparece antes, no tom geral. Existe afeto pela tradição, claro, porém existe também um cálculo muito nítido sobre o que pode ser simplificado, acelerado ou torcido sem matar a herança no processo.

Essa segurança sustenta o começo da campanha. Tiz Arrior, único sobrevivente da destruição de Norende, encontra Agnes Oblige, vestal encarregada de restaurar os quatro cristais, e logo o grupo se completa com Edea Lee e Ringabel, formando o quarteto central da aventura. É um grupo forte porque cada um ocupa um espaço reconhecível sem virar caricatura ambulante de arquétipo. Tiz segura o chão emocional da história. Agnes carrega boa parte do peso moral. Edea traz conflito ideológico de verdade. Ringabel impede que o roteiro se afogue na própria solenidade. Parece simples. Funciona justamente por isso.

Há um detalhe importante aqui: Bravely Default sabe escrever convivência melhor do que escreve grandiloquência. Quando o texto baixa a guarda, os personagens respiram. As conversas paralelas, os atritos pequenos, os comentários fora do eixo épico e certas piadas de gosto duvidoso — algumas envelheceram com dignidade, outras nem tanto — ajudam a tornar a jornada menos programática. O jogo cresce quando deixa o grupo existir entre uma obrigação cósmica e outra. Cresce menos quando sente necessidade de sublinhar a própria importância com a delicadeza de um martelo.

Mesmo assim, o mundo de Luxendarc segura a caminhada. Ele não vive de lore empilhado para inflar wiki. Vive de função dramática. Há religião, poder militar, manipulação, ruína, ressentimento e interesses conflitantes organizando o cenário. Nada disso parece revolucionário no papel. A diferença está no modo como o jogo distribui essas tensões sem transformar a fantasia em pasta genérica de reino medieval com cristal fluorescente no fundo da sala. Luxendarc tem desenho, ritmo e uma noção razoável de causa e efeito. Em RPG, já ajuda mais do que deveria.

O combate ainda dá aula

O coração de Bravely Default continua tão bom quanto a fama sugere. O sistema gira em torno de dois comandos: Brave e Default. Default coloca o personagem em postura defensiva e acumula pontos de ação para turnos seguintes; Brave usa esses pontos, ou antecipa ações futuras, permitindo até quatro movimentos em sequência para o mesmo personagem. O truque está no custo: antecipar demais cria uma dívida, e o personagem passa turnos inativo até pagar o excesso

Essa lógica muda tudo. Em muitos JRPGs por turno, combate estratégico significa escolher o feitiço certo no momento certo. Aqui, isso é só o começo. O jogo pede leitura de ritmo. Pede noção de risco. Pede coragem, mas uma coragem com planilha por trás. Avançar com tudo pode decidir uma luta em segundos ou deixar seu grupo inteiro olhando para o nada enquanto o chefe desmonta a festa. O sistema pune impulso mal calculado e recompensa preparação sem cair naquela lentidão solene que costuma ser vendida como “profundidade tática”.

É um combate com senso de tempo, e isso faz enorme diferença. Em vez de tratar turno como fila burocrática de comandos, Bravely Default transforma cada rodada em aposta. Vale a pena gastar agora? Vale segurar? Vale proteger um personagem para explodir no turno seguinte? Vale entrar em dívida porque você percebeu uma janela? Esse tipo de pergunta mantém o jogador ativo o tempo inteiro. O combate não pede só execução. Pede interpretação.

A outra metade desse acerto vem do sistema de jobs. Cada asterisco conquistado abre uma classe nova, e o jogo espalha um conjunto generoso de funções, variações e combinações possíveis. A classe principal define o eixo do personagem. A secundária amplia o repertório. As habilidades passivas vão aos poucos transformando personagens em pequenas monstruosidades de laboratório. O prazer está justamente aí: perceber que a composição do grupo nunca precisa ficar obediente demais.

O jogo adora ver o jogador montando gambiarra inteligente. Um suporte pode virar peça ofensiva por causa de uma passiva bem escolhida. Um personagem que parecia destinado ao papel de tanque assume outra função com duas mudanças de classe. Uma build que parecia piada começa a desmontar chefe em velocidade indecente. Esse espaço de experimentação dá ao sistema uma elasticidade rara. Há liberdade, mas não bagunça. Há possibilidade de quebrar o jogo, mas quebrá-lo exige entender suas dobradiças.

No PC, essa engrenagem ganha fôlego extra porque interface, menus e fluxo de navegação ajudam mais do que atrapalham. Pode parecer detalhe, mas não é. JRPG longo depende de cadência. Quando equipar habilidade, reorganizar job, revisar atributos e repetir combate vira processo ágil, o sistema inteiro respira melhor. Em Bravely Default, esse tipo de conforto pesa muito a favor da versão.

A confiança vira teimosia

O maior problema de Bravely Default segue intacto porque sempre esteve entranhado demais para ser resolvido por uma camada nova de verniz. Em determinado ponto da campanha, o jogo abraça uma estrutura repetitiva que compromete o ritmo, estica material demais e corrói parte da força que ele havia acumulado até ali. A decisão tem função narrativa. Tem intenção temática. Tem coerência interna. Também tem pouca piedade pelo tempo do jogador.

Esse é o tipo de problema que costuma gerar defesas apaixonadas e irritação igualmente apaixonada. Eu entendo a proposta. Vejo o desenho. Percebo o que o jogo quer construir com repetição, desgaste, looping e revisão de sentido. O ponto é mais simples: entender a intenção não melhora automaticamente a experiência. Em vários momentos, o jogo parece menos interessado em ampliar o próprio repertório do que em provar que sua insistência faz parte de um plano maior. Talvez faça. Continua sendo insistência.

O prejuízo maior não está em repetir eventos ou espaços de forma literal. Está em reduzir o senso de progressão. O começo da campanha tem descoberta. Tem deslocamento. Tem a impressão muito saudável de que cada nova região abre problema, cultura e conflito próprios. Quando a estrutura entra no modo de reaproveitamento, a aventura perde mundo e passa a orbitar em torno do próprio mecanismo. Em tese, isso produz estranhamento. Na prática, produz uma espécie de claustrofobia narrativa. Você já entendeu a piada. O jogo continua contando.

O mais frustrante é que essa teimosia sabota justamente o que Bravely Default tem de melhor. Como o combate é ótimo e o sistema de classes é viciante, a repetição não destrói o interesse por completo. Ela desgasta um jogo que merecia administrar melhor os próprios recursos. Fica a impressão de que alguém muito talentoso decidiu testar a paciência do público para ver até onde dava. Deu longe. Não deu sem custo.

Ainda assim, seria exagero reduzir a experiência a esse tropeço. O jogo não desaba, ele perde elegância. Há diferença, mesmo na fase em que mais insiste, o sistema de combate ainda encontra maneiras de manter parte do prazer. O grupo principal continua carregando boa vontade. Alguns encontros ainda têm peso. Alguns desvios ainda funcionam. O problema nunca é ausência de qualidade. É distribuição ruim dessa qualidade ao longo do tempo.

O remaster em PC

Como remaster, esta edição prefere preservar a obra a reinterpretá-la. Isso ajuda e limita ao mesmo tempo. Ajuda porque Bravely Default não precisava de uma cirurgia estética que confundisse identidade com atualização. Limita porque certos materiais mostram a idade com mais nitidez quando ampliados para uma apresentação moderna. Os cenários seguem belíssimos, com aquele aspecto de pintura delicadamente iluminada que sempre foi um dos grandes trunfos do jogo. Os personagens e alguns elementos de acabamento já oscilam mais. O conjunto funciona, mas a palavra “HD” carrega um pouco mais de pompa do que o resultado efetivamente entrega.

A direção de arte continua sendo peça-chave. Akihiko Yoshida assina os designs dos personagens, e a trilha de Revo segue essencial para o tom da aventura. É um casamento estético que ainda se sustenta porque há personalidade em tudo: no desenho dos rostos, no contraste entre doçura visual e gravidade narrativa, no modo como a música sabe inflar combate, tragédia e deslocamento sem virar massa sonora genérica. O remaster valoriza essa base. Não resolve todos os atritos visuais, mas preserva o que fazia diferença.

Em PC, o ganho principal está no conforto de uso. A leitura da ação é limpa, o contato com menus é mais agradável, e a experiência se beneficia bastante da facilidade de navegação típica da plataforma. Em jogo longo, isso não entra como luxo: entra como argumento. Quando a estrutura do roteiro começa a pedir paciência em demasia, qualquer melhoria de fluidez vira aliada. Bravely Default continua sendo um RPG que, às vezes, exige mais resignação do que deveria. Pelo menos esta versão evita que o atrito venha também da interface.

Há outro mérito discreto no remaster: ele não dilui a estranheza do original. Seria fácil lixar o jogo até ele caber no molde de “clássico prestigiado que todo mundo concorda em gostar”. Felizmente, isso não aconteceu. Bravely Default segue sendo um jogo com arestas. Segue capaz de entusiasmar de verdade numa hora e de irritar profundamente na seguinte. Eu prefiro assim. Jogo sem atrito demais costuma sair bonito na foto e desaparecer da memória com uma eficiência admirável.

O peso do legado

Revisitar Bravely Default hoje também reforça uma percepção que o tempo consolidou: ele influenciou mais do que alguns títulos supostamente maiores da própria Square Enix. O sistema Brave/Default permaneceu como uma das ideias mais fortes saídas do JRPG comercial dos anos 2010, e o diálogo do jogo com a tradição das classes ajudou a reacender um tipo de interesse que depois encontraria outras formas em projetos da própria empresa.

Isso não transforma o jogo em obra acima de crítica. Só ajuda a medir sua importância com mais precisão. Bravely Default não merece respeito por ser antigo o bastante para ganhar remaster. Merece respeito porque teve coragem de reorganizar velhos fundamentos em vez de simplesmente posar ao lado deles para foto de família. Ao mesmo tempo, seu grande defeito também diz muito sobre o período em que nasceu: a crença de que ambição estrutural, por si só, justificaria alongamento, repetição e desgaste. Em parte, justificou. Em parte, envelheceu mal.

O que mais gosto nesta nova visita é que ela devolve o jogo ao centro da discussão sem a proteção do portátil como contexto obrigatório. No 3DS, muita coisa ganhava uma camada extra de encanto por causa do hardware, do formato, do tipo de intimidade que ele gerava. No PC, sobra o jogo em estado mais nu. E o jogo, felizmente, continua tendo muito a mostrar. Só já não conta com a mesma tolerância automática para seus excessos.

BRAVELY DEFAULT FLYING FAIRY HD Remaster continua sendo um grande JRPG. Continua também sendo um grande JRPG com sérios problemas de ritmo. O sistema de combate ainda parece inventivo, agressivo e elegante. O sistema de jobs mantém aquele prazer quase indecente de experimentar combinação atrás de combinação até o grupo virar uma máquina de guerra desenhada por alguém com excesso de tempo e pouca vergonha. O elenco central segura a campanha quando o roteiro vacila. E a direção de arte preserva uma identidade que o gênero raramente consegue sustentar sem recorrer a caricatura ou pompa vazia.

Mas o jogo ainda se prolonga mal. Ainda confunde insistência com contundência. Ainda pede ao jogador uma dose de paciência que seu melhor material não deveria precisar cobrar. O remaster melhora acesso, clareza e conforto, sobretudo no PC. Isso ajuda bastante. Não basta para transformar a reta problemática em virtude secreta descoberta apenas pelos iniciados.

No fim, fico com a impressão de estar diante de um clássico legítimo e de uma obra parcialmente sabotada pela própria ambição. Não me incomoda que o remaster preserve isso. Pelo contrário. Há honestidade em devolver Bravely Default ao público sem maquiagem moral, sem fingir que seus defeitos eram mal-entendidos de gente apressada. O jogo brilhava antes. Continua brilhando agora. Só que a luz também revela a poeira.

Análise produzida com cópia para PC via Steam fornecida pela Square Enix.

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MUITO BOM 8.2
NOTA 8.2
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