A Cygames levou anos para transformar Granblue Fantasy, uma das franquias mais lucrativas dos celulares no Japão, em um RPG de ação para consoles e PC. O desenvolvimento passou por mudanças importantes, incluindo a saída da PlatinumGames do projeto, adiamentos e um período em que muita gente começou a duvidar do resultado. Quando Relink finalmente chegou, mostrou que a espera valeu a pena. O combate era excelente e serviu como base para um endgame que conquistou muitos jogadores.
Endless Ragnarok chega justamente para expandir essa parte da experiência. Em vez de reinventar o jogo, a expansão aposta em novos desafios, sistemas de progressão e um conteúdo pensado para quem já domina as mecânicas principais.
Vale lembrar que boa parte da identidade do combate nasceu durante a parceria com a PlatinumGames. Mesmo com a Cygames assumindo o desenvolvimento completo na reta final, o resultado preservou aquele estilo de ação rápido, cheio de esquivas precisas, contra-ataques e personagens que jogam de maneiras completamente diferentes entre si.
A expansão aproveita essa base e aumenta significativamente o nível de dificuldade. Basta acompanhar as discussões da comunidade para perceber um consenso curioso: praticamente todo mundo elogia o combate, mas também existe uma quantidade considerável de críticas ao excesso de repetição exigido para evoluir os personagens.
Na parte da história, Endless Ragnarok coloca a tripulação diante de uma nova ameaça envolvendo as feras primordiais que começam a colocar Zegagrande em risco. O enredo não tenta revolucionar a narrativa da franquia, mas cumpre bem o seu papel ao apresentar os novos desafios e conduzir o jogador até o verdadeiro foco da expansão.
Visualmente, Relink continua impressionando. A adaptação das artes de Hideo Minaba para o ambiente tridimensional continua sendo um dos maiores acertos da produção. Os personagens preservam toda a identidade das ilustrações originais, enquanto os cenários, efeitos de magia e animações deixam as batalhas ainda mais bonitas. No PC, quem possui uma configuração mais robusta consegue aproveitar tudo isso com taxas de quadros bastante altas, o que faz diferença em um jogo que exige respostas rápidas durante os combates.
A campanha inédita não é particularmente longa. Ela funciona mais como uma preparação para o conteúdo de alto nível do que como o principal atrativo da expansão. Ainda assim, as cenas são bem produzidas, as lutas contra os chefes mantêm o espetáculo visto no jogo base e o ritmo evita enrolações desnecessárias. Em poucas horas o jogador já está diante do conteúdo que realmente define Endless Ragnarok.
É justamente aí que a expansão mostra sua proposta. Depois dos créditos, o nível de dificuldade sobe bastante e a progressão passa a girar quase inteiramente em torno da busca por equipamentos melhores. O elenco, que já era variado, ganha ainda mais importância porque cada personagem exige uma forma diferente de jogar. Alguns apostam em velocidade, outros dependem de golpes carregados, enquanto há opções voltadas para suporte e controle da equipe.
Isso faz com que montar o grupo deixe de ser apenas uma escolha de preferência pessoal. A combinação dos personagens influencia diretamente o desempenho nas missões mais difíceis, principalmente na dificuldade Ragnarok. Saber identificar a hora certa de atacar, defender e utilizar os Link Attacks passa a ser tão importante quanto melhorar os atributos do equipamento.
O combate continua sendo o grande destaque. A resposta dos comandos é excelente e derrotar um chefe difícil transmite aquela sensação de evolução que poucos RPGs de ação conseguem oferecer. O problema é que essa satisfação depende de aceitar um ciclo de repetição bastante intenso. Os materiais mais raros possuem taxas de drop baixas, obrigando o jogador a enfrentar o mesmo chefe diversas vezes antes de conseguir fabricar um único equipamento importante.
Essa estrutura lembra bastante a filosofia dos jogos mobile, algo que faz sentido considerando a origem da franquia. Para quem gosta de passar dezenas de horas aperfeiçoando personagens, isso provavelmente não será um problema. Já quem prefere uma progressão mais constante pode sentir o desgaste relativamente cedo.
A expansão também amplia o sistema de evolução dos personagens com novas Masteries e mais possibilidades de personalização. Os Sigils continuam tendo um papel central na construção de cada build, permitindo especializações voltadas para dano, resistência ou suporte. Em compensação, a quantidade de combinações e estatísticas cresce bastante. Quem gosta de otimizar números vai encontrar profundidade aqui. Já os jogadores menos dedicados podem demorar um pouco até entender como todos esses sistemas se encaixam.
Depois de algumas horas no conteúdo avançado fica claro que Endless Ragnarok aposta quase tudo em uma única ideia: repetir as caçadas até dominar completamente cada batalha. A estrutura é simples. Você enfrenta uma fera primordial, coleta materiais, melhora seus equipamentos e volta para enfrentar um desafio ainda maior. É um ciclo repetitivo, e a expansão não tenta esconder isso.
A diferença é que o combate continua sendo divertido o bastante para sustentar boa parte dessa rotina.
O elenco faz um trabalho importante nesse aspecto. Mesmo depois de dezenas de horas, trocar de personagem muda completamente a experiência. Narmaya, por exemplo, exige precisão na troca de posturas durante os combos. Vane recompensa quem sabe proteger o grupo nos momentos certos, enquanto Io depende de posicionamento e paciência para lançar seus feitiços mais fortes. Não são apenas estilos diferentes. Em muitos casos parece que cada personagem segue suas próprias regras.
As novas feras primordiais também elevam o desafio. Os confrontos exigem leitura constante dos movimentos do chefe, domínio das esquivas e conhecimento das janelas de ataque. Quando um inimigo entra no estado de Bloodthirst, a luta muda completamente de ritmo. Os ataques passam a ocupar quase toda a arena e qualquer erro pode custar a tentativa inteira.
Nesses momentos, executar uma esquiva perfeita ou um bloqueio no instante exato deixa de ser apenas satisfatório. Muitas vezes é a única maneira de recuperar o controle da luta.
Jogar sozinho funciona melhor do que parece
Uma das maiores surpresas da expansão é a inteligência artificial dos companheiros.
Normalmente, jogos focados em equipes acabam punindo quem prefere jogar sozinho, mas não é o caso aqui. Os personagens controlados pelo computador cumprem muito bem suas funções, desviam dos ataques com frequência, utilizam habilidades de suporte nos momentos certos e acompanham as estratégias definidas pelo jogador.
Isso não substitui um grupo formado por pessoas reais, mas torna perfeitamente viável aproveitar praticamente todo o conteúdo sem depender de partidas online.
Ao mesmo tempo, existe uma perda perceptível na estrutura das missões.
Durante a campanha principal ainda havia espaço para explorar cenários, resolver pequenos desafios ambientais e atravessar áreas diferentes antes de chegar aos chefes. No conteúdo avançado isso praticamente desaparece. As missões acontecem quase sempre em arenas fechadas, criadas exclusivamente para o combate.
É uma decisão compreensível, já que esse é o foco da expansão, mas também faz o mundo de Zegagrande parecer menor do que realmente é. Depois de um tempo, a sensação de descoberta acaba dando lugar apenas à próxima luta.
Muito conteúdo, mas nem sempre no ritmo certo
O maior obstáculo de Endless Ragnarok continua sendo sua progressão.
Conseguir as armas mais poderosas e os equipamentos de nível máximo exige repetir inúmeras vezes as mesmas missões. Em alguns casos, o material necessário simplesmente demora para aparecer, transformando o avanço em uma questão de insistência muito mais do que habilidade.
Isso não chega a estragar a experiência, mas torna o ritmo irregular. Há momentos em que o jogo recompensa seu desempenho rapidamente. Em outros, parece apenas consumir tempo até que a sorte resolva colaborar.
Essa filosofia lembra bastante a estrutura de jogos como serviço e até das origens mobile da franquia. Funciona para quem gosta de perseguir equipamentos perfeitos durante semanas. Para quem procura uma evolução mais constante, o desgaste aparece cedo.
A construção das builds também ficou mais complexa.
Os Sigils continuam sendo fundamentais, mas agora exigem ainda mais atenção. Entender como cada bônus conversa com o limite de dano, tempo de recarga e chance de acerto crítico faz diferença real no desempenho. Existe profundidade suficiente para agradar quem gosta de otimizar cada detalhe, embora parte dessa complexidade pareça desnecessária.
O sistema de Damage Cap é um bom exemplo disso. Em vez de simplesmente aumentar o poder do personagem, muitas vezes o jogador precisa gastar espaços preciosos da build apenas para liberar o dano que teoricamente já deveria causar. É uma limitação que adiciona gerenciamento, mas nem sempre torna a progressão mais interessante.
Outro ponto que incomoda aparece nas batalhas online.
A direção de arte continua excelente, mas o excesso de efeitos visuais às vezes trabalha contra o próprio combate. Em grupos completos, principalmente durante as Skybound Arts e o Full Burst, a tela fica tomada por explosões, partículas e números de dano. Em alguns confrontos, o verdadeiro desafio deixa de ser o chefe e passa a ser enxergar o que ele está fazendo.
Essa falta de clareza acaba provocando mortes que parecem mais consequência da confusão visual do que da dificuldade da luta.
Endless Ragnarok não tenta mudar a identidade de Granblue Fantasy: Relink. A expansão existe para ampliar tudo aquilo que o jogo base já fazia bem. O combate continua excelente, a variedade de personagens mantém as partidas interessantes mesmo depois de muitas horas e as batalhas contra as novas feras primordiais estão entre os melhores momentos da experiência.
Ao mesmo tempo, a Cygames praticamente dobra a aposta em um modelo de progressão que nem todo jogador vai aceitar. O endgame depende de muito grind, de repetição constante e de uma boa dose de sorte para conseguir os equipamentos mais raros. Quem esperava novas áreas para explorar ou uma campanha longa provavelmente vai terminar a expansão com a sensação de que boa parte do conteúdo ficou concentrada apenas nas arenas de combate.
Por outro lado, quem gosta de montar builds, testar combinações de personagens e enfrentar chefes cada vez mais difíceis encontra aqui material suficiente para investir dezenas, ou até centenas, de horas. Poucos RPGs de ação conseguem oferecer um sistema de combate tão consistente quanto Relink, e Endless Ragnarok aproveita esse ponto forte praticamente o tempo inteiro.
Nem todas as escolhas funcionam. A economia de recursos poderia ser menos punitiva, a repetição pesa depois de algum tempo e o excesso de efeitos visuais em algumas batalhas acaba atrapalhando mais do que ajuda. Ainda assim, quando tudo funciona, a expansão entrega exatamente aquilo que se propõe: desafios difíceis, confrontos memoráveis e espaço para dominar um dos sistemas de combate mais refinados dos RPGs de ação recentes.
No fim das contas, Endless Ragnarok é uma expansão feita para quem já estava completamente envolvido com Granblue Fantasy: Relink. Ela não é a melhor porta de entrada para novos jogadores, mas amplia o conteúdo do jogo base de forma competente e oferece motivos suficientes para os veteranos continuarem voltando às ilhas de Zegagrande por muito tempo.



