Just Dance: Decades of Hits é Aquela festa com espaço para mais músicas

Por
Rômulo de Araújo
Editor Chefe
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Just Dance: Decades of Hits tem uma ideia que praticamente se vende sozinha: reunir sucessos de diferentes gerações e transformar seis décadas de música em uma grande pista de dança. A seleção vai do ABBA a Sabrina Carpenter, passando por Madonna, Spice Girls, Daft Punk, Gorillaz, Britney Spears e *NSYNC. É o tipo de repertório que permite colocar pessoas com gostos e referências completamente diferentes na mesma sala. Pelo menos até alguém pegar o controle e começar a discutir quem está fazendo a coreografia errada.

A Ubisoft sabe que a música é o principal motivo para alguém comprar Just Dance. A franquia não precisa de uma narrativa elaborada nem de um sistema de progressão cheio de complicações para funcionar. Basta escolher uma faixa conhecida, apresentar uma coreografia divertida e deixar o jogador tentar acompanhar os movimentos na tela. Por isso, uma coletânea organizada por décadas tem tanto potencial: além de reunir sucessos, ela permite explorar as mudanças do pop e apresentar músicas de épocas que parte do público talvez conheça apenas de ouvir falar.

O repertório inclui “Mamma Mia”, do ABBA, “It’s Tricky”, do Run-DMC, “Wannabe”, das Spice Girls, “Around the World”, do Daft Punk, e “Feel Good Inc.”, do Gorillaz. São escolhas que representam estilos diferentes e oferecem oportunidades para coreografias com identidades próprias. A música não serve apenas como acompanhamento. Em Just Dance, ela precisa ditar o ritmo, orientar os movimentos e dar personalidade à apresentação.

Minha ressalva começa na quantidade. São 35 faixas no repertório-base, um número modesto para uma edição que pretende celebrar seis décadas de música. A seleção tem nomes reconhecíveis, mas a Ubisoft poderia ter aproveitado melhor a ideia, ampliando o catálogo e distribuindo as escolhas de maneira mais representativa entre os períodos.

Não espero que cada edição da franquia reúna todos os grandes sucessos da história da música. Licenciamento custa dinheiro, os gostos variam e qualquer seleção envolve escolhas discutíveis. Ainda assim, quando o conceito central é viajar por várias décadas, o repertório precisa justificar essa ambição. Com apenas algumas músicas representando determinados períodos, a experiência corre o risco de parecer uma playlist temática enxuta, e não uma celebração tão abrangente quanto o título sugere.

Também há uma diferença entre incluir uma música conhecida e escolher uma faixa que realmente mereça estar ali. Os sucessos mais populares ajudam a vender a coletânea, mas composições menos familiares precisam conquistar seu espaço por meio de boas coreografias e apresentações interessantes. As músicas originais criadas para o jogo podem contribuir para essa identidade, embora tenham uma missão mais difícil quando dividem espaço com artistas que já fazem parte da memória coletiva.

A distribuição das faixas também poderia ser mais equilibrada. Os anos 2000, por exemplo, recebem um recorte concentrado nos primeiros anos da década, deixando de fora outras possibilidades que ajudariam a representar melhor aquele período. Não é necessário transformar o jogo em uma enciclopédia musical, mas uma seleção com esse conceito deveria aproveitar melhor a diversidade que tem à disposição.

O catálogo é suficientemente variado para despertar interesse, mas não tão generoso a ponto de tornar a compra indispensável para quem já acompanha a série. É uma diferença importante, principalmente em uma franquia que lança novas edições regularmente e precisa convencer o público de que vale a pena voltar à pista.

A acessibilidade sempre foi parte da identidade de Just Dance. O jogador escolhe uma música e tenta reproduzir os movimentos apresentados na tela, acumulando pontos conforme sua execução é avaliada. Não é preciso ter experiência com dança, conhecer técnicas específicas ou passar semanas treinando para participar. A graça está justamente em permitir que pessoas com níveis diferentes de habilidade compartilhem a mesma atividade.

Por outro lado, existe uma diferença entre criar coreografias acessíveis e simplificar demais músicas que pedem mais energia. Parte da comunidade criticou a dificuldade de algumas rotinas, incluindo a de “Danza Kuduro”. É uma discussão pertinente porque a franquia precisa atender tanto quem quer dançar casualmente quanto quem conhece as edições anteriores e procura desafios mais elaborados.

Uma rotina simples pode funcionar perfeitamente em uma reunião de família. Já para quem acompanha a série há anos, movimentos previsíveis podem reduzir a vontade de repetir uma música. Não vejo motivo para escolher um público e abandonar o outro. Uma variedade maior de dificuldades permitiria que iniciantes participassem sem impedir que jogadores experientes encontrassem coreografias capazes de exigir mais coordenação e resistência.

“Wannabe”, das Spice Girls, oferece um exemplo interessante de como a apresentação pode fazer diferença. A coreografia utiliza cinco dançarinos, uma novidade para a franquia, e incorpora a identidade do grupo à execução. É uma escolha que demonstra como Just Dance pode ir além de colocar movimentos genéricos sobre uma música popular.

Esse é o tipo de cuidado que faz uma faixa se destacar. Uma coreografia memorável interpreta a música, acompanha suas mudanças de ritmo e aproveita os momentos que o público reconhece. Quando tudo se encaixa, até uma canção que o jogador conhece há décadas ganha outra dimensão. Quando a rotina parece pouco inspirada, nem o nome do artista consegue carregar a experiência sozinho.

aventura para justificar a viagem

A novidade mais significativa de Decades of Hits é o Modo Aventura. A história acompanha Lyra Gigavolt, que parte em busca do pai, o excêntrico Dr. Gigavolt, depois de um incidente envolvendo uma máquina do tempo. A viagem por diferentes épocas funciona como justificativa para explorar os cenários temáticos e dançar as músicas correspondentes.

A estrutura acrescenta um objetivo à sequência de apresentações. Em vez de escolher faixas isoladas indefinidamente, o jogador avança por uma jornada que combina músicas, pequenas áreas exploráveis, itens colecionáveis e questionários sobre cultura pop. As perguntas abordam referências de diferentes períodos, incluindo moda e tecnologia, ajudando a reforçar a identidade de cada década.

É uma maneira razoável de organizar o conteúdo. Nem todo mundo quer entrar no jogo, escolher uma música e voltar ao menu assim que ela termina. Uma progressão com objetivos claros pode incentivar o jogador a experimentar faixas que normalmente ignoraria, especialmente quando a seleção inclui artistas e estilos que não fazem parte de seus hábitos musicais.

A história, por sua vez, não parece ter a intenção de transformar Just Dance em uma aventura convencional. O enredo serve de ligação entre as músicas, enquanto a exploração e os questionários funcionam como intervalos entre uma dança e outra. Quem espera sistemas complexos, grandes descobertas ou uma narrativa particularmente profunda provavelmente está procurando essas coisas no jogo errado.

A Ubisoft também permite que até seis pessoas participem localmente. O progresso depende do desempenho nas músicas, mas não é necessário completar absolutamente todas as faixas para avançar à década seguinte. Essa flexibilidade ajuda a manter a experiência acessível, evitando que uma música particularmente difícil interrompa a diversão de todo o grupo.

O Modo Aventura é uma adição bem-vinda, mas sua importância tem limites. A atividade principal continua sendo dançar, e a progressão existe para organizar esse conteúdo, não para alterar profundamente a jogabilidade. A novidade dá mais contexto à seleção musical, embora não seja suficiente para justificar sozinha a compra de uma nova edição.

Party Mode e a diversão em grupo

O Party Mode aposta em rodadas curtas, trechos de diferentes músicas e regras que mudam durante a sessão. A intenção é impedir que a atividade fique previsível, introduzindo comandos especiais e interferências visuais que exigem atenção além da coreografia. Em alguns momentos, o jogador precisa executar ações específicas, como bater palmas ou interromper os movimentos, para conquistar pontos adicionais.

A estrutura combina com a proposta social da franquia. Rodadas rápidas facilitam a participação de quem está chegando à brincadeira, e as mudanças de regras criam oportunidades para situações engraçadas. O modo não reinventa Just Dance, mas oferece uma alternativa para grupos que preferem disputas rápidas a uma sequência tradicional de músicas completas.

A longevidade depende, naturalmente, da variedade dessas situações. Quando as mesmas interferências começam a se repetir, a surpresa perde força. Itens cosméticos, avatares, emotes e planos de fundo acrescentam recompensas, mas não são o principal motivo para continuar jogando. No fim das contas, são as músicas e as coreografias que precisam sustentar o interesse.

O modo tradicional continua sendo o centro da experiência, com a possibilidade de escolher faixas e montar playlists conforme o gosto do grupo. O Modo Exercício também retorna, registrando uma estimativa de calorias gastas durante as danças. É um complemento útil para quem gosta de acompanhar a atividade física, embora não deva ser confundido com uma ferramenta precisa de monitoramento esportivo.

O jogo também oferece opções de controle por meio do aplicativo para smartphone, além dos Joy-Con nas versões compatíveis com Nintendo Switch. A possibilidade de reunir várias pessoas sem exigir um acessório dedicado para cada participante facilita a organização de uma sessão em casa.

Naturalmente, a experiência depende de o sistema reconhecer os movimentos de maneira consistente. A pontuação faz parte da brincadeira, e discrepâncias entre o que o jogador executa e o resultado apresentado podem frustrar quem leva a disputa a sério. Para grupos que jogam apenas pela diversão, esse tipo de situação pode virar piada. Em sessões competitivas, a tolerância costuma ser menor.

Decades of Hits mantém os elementos necessários para funcionar como jogo de festa. O repertório familiar ajuda a reunir os participantes, o Party Mode varia o ritmo e o Modo Aventura oferece uma progressão mais organizada. São adições úteis, mas nenhuma delas altera radicalmente a fórmula que a franquia utiliza há anos.

Uma coletânea interessante, mas não essencial

A seleção musical é o principal argumento de Decades of Hits e também seu maior limite. Reunir sucessos de diferentes épocas permite alternar entre artistas que marcaram gerações, criando uma experiência que pode aproximar pessoas com referências musicais distintas. Uma música conhecida pelos pais pode ser descoberta pelos filhos, enquanto um sucesso recente pode despertar a curiosidade de quem passou décadas ouvindo outros estilos.

Essa dimensão social ajuda a explicar a longevidade de Just Dance. O jogo não depende apenas de precisão ou pontuação. Ele também funciona como uma atividade compartilhada, em que conhecer a música, reconhecer a coreografia e rir dos próprios erros fazem parte da experiência.

A nostalgia, porém, não pode carregar o produto inteiro. Uma coletânea precisa oferecer variedade suficiente para manter o interesse depois que o jogador experimenta as faixas mais conhecidas. Com 35 músicas, Decades of Hits tem um repertório funcional, mas poderia ser mais generoso justamente por trabalhar com um conceito tão amplo.

A integração com Just Dance 2023, 2024, 2025 e 2026 permite reunir conteúdos de diferentes edições em um mesmo lugar, incluindo músicas adquiridas anteriormente e faixas disponibilizadas por meio de uma assinatura ativa do Just Dance+. Para quem já investiu na franquia, essa conveniência é relevante. Em vez de tratar cada lançamento como uma experiência completamente separada, a biblioteca passa a funcionar como parte de um catálogo maior.

A situação é diferente para quem está chegando agora. A integração não aumenta a quantidade de músicas incluídas na compra de Decades of Hits, e o acesso a conteúdos adicionais depende de aquisições anteriores ou da assinatura. O Just Dance+ pode fazer sentido para quem pretende jogar regularmente, mas representa um custo extra que precisa ser considerado antes da compra.

É importante separar essas duas coisas: ter uma plataforma conveniente para acessar diferentes edições é positivo, mas não substitui um repertório-base robusto. Para quem compra o jogo esperando uma grande coleção musical, a quantidade de faixas incluídas continua sendo decisiva.

Vale a pena comprar Just Dance: Decades of Hits?

Just Dance: Decades of Hits tem uma identidade clara. A seleção reúne artistas de diferentes gerações, o Modo Aventura oferece uma maneira organizada de percorrer o repertório e o Party Mode continua sendo uma opção adequada para jogar acompanhado. A franquia mantém sua acessibilidade e encontra oportunidades para explorar a identidade visual e musical de cada período.

Minha principal ressalva é que a edição poderia fazer mais com a própria ideia. Trinta e cinco músicas são poucas para uma viagem por seis décadas, algumas escolhas deixam períodos importantes sub-representados e a dificuldade das coreografias nem sempre parece atender a quem procura desafios maiores. O Modo Aventura acrescenta contexto, mas não muda o suficiente na estrutura para compensar essas limitações.

Para famílias, grupos de amigos e jogadores que querem uma coletânea acessível, o jogo tem atrativos claros. A familiaridade das músicas facilita a participação, e a variedade de artistas permite montar sessões com gostos diferentes. Para quem já possui edições recentes, entretanto, a compra depende principalmente do interesse pelo repertório e pela nova aventura.

A Ubisoft tinha uma boa oportunidade para montar uma coleção realmente abrangente, capaz de apresentar a evolução da música pop sem perder o caráter descontraído da franquia. O resultado funciona, mas parece contido demais para a própria proposta. Mais músicas, uma distribuição melhor entre as décadas e maior variedade de desafios tornariam a edição mais convincente.

Decades of Hits é uma coletânea interessante, especialmente para quem pretende dividir a pista com outras pessoas. Só não espere que o nome prometa uma retrospectiva musical definitiva. A festa está montada, as músicas conhecidas estão lá, mas ainda havia espaço para convidar mais gente.

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Rômulo de Araújo

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Just Dance: Decades of Hits
INTERESSANTE 7.5
SCORE 7.5
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