
O subgênero de rally sempre teve um charme próprio no mundo dos jogos de corrida. Ele representa mais do que apenas ultrapassar adversários ou decorar curvas em alta velocidade. É sobre entender o solo que se pisa — ou melhor, que se atravessa a mais de 100 km/h. Enquanto os jogos de corrida tradicionais se preocupam principalmente com o traçado da pista e o comportamento do carro, os títulos de rally se destacam ao introduzir o desafio do terreno. São relevos, texturas e superfícies que mudam drasticamente o comportamento dos veículos e exigem uma leitura constante do ambiente. Em Rally Arcade Classics, essa proposta é abordada com uma pegada direta e acessível, mas que também carrega limitações evidentes.
Uma das comparações mais interessantes que podem ser feitas com a experiência de jogos de rally vem de um gênero completamente diferente: o de exploração. Especificamente, o de Death Stranding. No aclamado título de Hideo Kojima, o terreno é quase um personagem — cada pedra, cada desnível é uma decisão de design que obriga o jogador a desacelerar e prestar atenção. Rally Arcade Classics aplica esse conceito de forma contrária: os terrenos passam rápido demais, mas ainda assim exigem uma certa leitura do jogador, mesmo que não com a mesma profundidade. Não a toa, inclusive, Snowrunner é o jogo que mostra muito na cara que o Kojima pegou “emprestado” o game design quase que inteiro para seu Death Stranding (e nunca agradeceu por isso)…

O que isso significa na prática é que, embora Rally Arcade Classics apresente variações visuais e diferentes tipos de solo — barro, areia, cascalho, entre outros —, esses elementos têm pouco impacto real na jogabilidade. A física dos carros não responde de maneira convincente às irregularidades do terreno. Fica a impressão de que, visualmente, há um esforço para transmitir a ideia de diferentes pisos, mas o “feel” da direção permanece relativamente constante. O carro não escorrega como deveria na lama, nem trepida ao passar por pedras. A sensação de pilotar acaba sendo mais próxima de um jogo arcade genérico do que de uma experiência verdadeiramente voltada ao rally,às vezes mais remetendo ao SEGA Rally, se aquela era a sua praia.
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Apesar disso, há mérito no que Rally Arcade Classics consegue entregar dentro do escopo que se propõe. O título aposta em corridas curtas, de alta intensidade, que funcionam bem dentro de sessões rápidas de jogatina. Não é o tipo de jogo que convida o jogador a passar horas seguidas em maratonas. Pelo contrário: ele funciona melhor como uma dose rápida de adrenalina, ideal para quem quer competir por alguns minutos e depois seguir com o dia.
Esse ritmo ágil é reforçado por uma direção sólida dos carros. O controle responde bem, os comandos são precisos e o desafio apresentado pelas pistas — ainda que pouco distintas entre si — exige habilidade e concentração. Há momentos em que o jogador se vê completamente absorvido tentando reduzir milissegundos de um tempo anterior, guiado por aquela sensação viciante de “dá pra melhorar”. É nesse aspecto que o game mais se aproxima da proposta de títulos como Trackmania, em que o jogador vira um obcecado por rota ideal, curvas perfeitas e mínima perda de velocidade.

Pouco aos olhos
A direção dos veículos é competente, mas esbarra em um mundo visualmente estéril. Isso porque estou perdoando os visuais datados, pois isso não é relevante para mim. O problema na verdade é que Rally Arcade Classics parece um típico caso de “asset flip”: pistas com elementos genéricos, reutilizados em excesso e com pouca atenção ao detalhe. A falta de identidade visual pesa contra a imersão. Não há vegetação que balance, público reagindo, nem ambientação que indique uma localidade específica. Tudo parece tirado de uma biblioteca básica de assets e aplicado com economia de esforço.
Essa ausência de capricho visual se estende à diferenciação das pistas. Muitas delas compartilham layout ou aparência semelhante, o que contribui para que o jogador se sinta satisfeito ao jogar em sessões curtas — o cansaço visual viria rapidamente em sessões longas. Por outro lado, essa simplicidade pode ser interpretada como uma escolha de design voltada a manter o foco no gameplay puro. Há jogadores que preferem jogos limpos, onde a performance do carro e a habilidade são os únicos elementos relevantes. Contudo, a falta de capricho nos detalhes é difícil de defender quando se nota a repetição de elementos em excesso.
A campanha de Rally Arcade Classics é extensa — outro ponto positivo que mostra o empenho dos desenvolvedores em oferecer conteúdo — mas carece de apresentação. O jogo praticamente não tenta criar um mundo ao redor de suas corridas. Não há personagens com personalidade, cutscenes ou um mínimo de contexto narrativo. Os menus são funcionais, mas sem carisma, e a trilha sonora é esquecível. Nada nele te convida a explorar por curiosidade. O único apelo é o gameplay nu e cru.
Em um mercado onde jogos independentes muitas vezes compensam a limitação técnica com carisma — seja através de uma trilha cativante, visuais estilizados ou uma identidade forte —, Rally Arcade Classics opta por se distanciar de qualquer ornamento. A escolha é válida, mas também arriscada. A ausência total de floreios pode ser vista como falta de ambição. Um personagem carismático, um sistema de progressão mais atrativo, ou até mesmo uma música tema marcante poderiam elevar o jogo a outro patamar.
É importante, no entanto, destacar que Rally Arcade Classics parece saber exatamente para quem ele está sendo feito. Jogadores que prezam por partidas rápidas, controle firme e um desafio direto vão encontrar aqui uma experiência satisfatória. Não há tutoriais longos, desbloqueios demorados ou firulas. Tudo é gameplay: entre no carro, corra, tente bater seu tempo, e repita.
Esse respeito ao tempo do jogador pode ser visto como um dos trunfos do game. Ele não tenta ser mais do que é — um jogo de rally com alma arcade. Por isso, mesmo com visuais genéricos e ausência de atmosfera, ele consegue se manter relevante dentro de uma proposta modesta, porém funcional.

Rally Arcade Classics é um título que parece se contentar com o básico, mas que entrega uma jogabilidade sólida e direta. Ele não vai revolucionar o subgênero, nem se tornar um novo clássico dos simuladores de rally. Seu visual genérico, a ausência de elementos imersivos e uma física simplificada do terreno o impedem de alcançar voos mais altos. No entanto, o ritmo ágil das partidas, o controle preciso e o desafio crescente tornam o jogo competente para quem busca apenas “mais uma corrida” no intervalo entre outras atividades.
Rally Arcade Classics
SCORE - 7
7
BOM
Poderia ser mais? Certamente. Bastava um pouco de cuidado a mais com o ambiente, um toque de carisma nos menus ou na trilha sonora, e Rally Arcade Classics poderia ter se tornado um favorito entre os jogadores arcade de rally. Por ora, ele permanece como um título honesto: direto, sem frescura, mas também sem identidade.

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