Hell Clock: O Tempo e o Inferno do Nordeste Brasileiro

Eu não acho que roguelites e likes sejam o prato mais gostoso disponível no buffet, mas me serve bem. Essa introdução parece apropriada ao falar de Hell Clock, um jogo que não tenta revolucionar nada, mas que carrega consigo uma identidade cultural tão singular que seria impossível ignorá-lo. Desenvolvido pelo estúdio brasileiro independente Rogue Snail, Hell Clock é um ARPG roguelite que mistura ação frenética, narrativa histórica e uma estética visual que bebe diretamente das fontes da cultura nordestina brasileira.

Ao iniciar Hell Clock, o jogador é imediatamente lançado em uma narrativa que, embora fantástica, está ancorada em um dos episódios mais traumáticos da história brasileira: o Massacre de Canudos. O jogo não é uma representação literal do conflito, mas utiliza esse contexto histórico como pano de fundo para sua trama sobrenatural. O protagonista é um personagem enigmático que precisa enfrentar hordas de criaturas demoníacas enquanto navega por cenários que evocam o sertão nordestino — árido, hostil, mas também repleto de beleza melancólica.

A proposta visual do jogo é, sem dúvida, um dos seus maiores trunfos. A direção de arte abraça uma paleta de cores quentes, dominada por tons de laranja, vermelho e marrom, que remetem ao calor escaldante e à poeira do sertão, só que desta vez ao lado soturno da coisa. Os ambientes são desenhados com atenção aos detalhes, repletos de referências à arquitetura colonial e aos elementos da religiosidade popular nordestina. Há uma atmosfera opressiva que permeia cada cenário, uma sensação de estar preso entre o sagrado e o profano, entre o inferno literal e o inferno metafórico que foi Canudos.

Testando algumas sessões no Steam Deck, constatei que, mesmo que o jogo traga uma proposta mais simples no grafismo, se apoiando mais na parte artística, está claro que o jogo pesa demais no aparelho, sinalizando que a gente poderia ter um jogo com mais otimização pela frente nos updates.

Essa identidade visual não é apenas decorativa. Ela serve como uma linguagem que comunica a essência do jogo: um confronto entre tradição e caos, entre história e mitologia. As criaturas que o jogador enfrenta são grotescas e perturbadoras, mas também possuem um charme estranho, quase folclórico. Parece que cada inimigo foi desenhado para evocar algum aspecto do imaginário brasileiro, seja ele explícito ou subliminar. É raro ver um jogo indie conseguir criar uma identidade visual tão coesa e culturalmente relevante. Vestimentas, itens e suas utilidades, absolutamente tudo tem o toque nordestino que para mim traz um diferencial enorme e refrescante.

No entanto, quando saímos do aspecto artístico e entramos na mecânica de jogo, Hell Clock revela suas limitações. O gameplay é funcional, mas não surpreende. Trata-se de um roguelite de cima para baixo onde o jogador enfrenta ondas de inimigos em arenas sucessivas, coletando power-ups temporários e permanentes ao longo do caminho. A estrutura é familiar para qualquer pessoa que já tenha jogado títulos como Hades, The Binding of Isaac ou Enter the Gungeon. E é exatamente aí que reside o problema: Hell Clock não consegue se destacar mecanicamente da multidão.

O combate é rápido e requer reflexos afiados, mas carece de profundidade estratégica. Há uma variedade razoável de armas e habilidades, mas poucas delas oferecem sinergia interessante ou builds verdadeiramente distintas. A progressão entre as corridas é incremental e, embora satisfatória no início, rapidamente se torna repetitiva. Falta aquele elemento de descoberta que mantém os melhores roguelites viciantes por dezenas de horas. Após algumas corridas, o jogador já viu a maior parte do que o jogo tem a oferecer em termos de mecânicas.

A dificuldade do jogo também é um ponto de controvérsia. Hell Clock não é exatamente fácil, mas também não oferece a curva de desafio bem calibrada que caracteriza os grandes nomes do gênero. Os primeiros estágios podem ser triviais, enquanto os últimos apresentam picos de dificuldade que parecem mais frustantes do que justos. A sensação de progressão é comprometida quando o jogador sente que está morrendo mais por questões de design do que por falta de habilidade. Não é surpresa dizer que as partidas estão limitadas ao tempo disponível no Hell Clock, então o jogador pode ficar indeciso entre seguir em frente como um speedrunner faminto ou sair levemente do caminho para explorar e sacrificar seus preciosos segundos.

Seu objetivo é cada vez ficar permanentemente mais forte conforme desce mais níveis de calabouços, Sendo mais forte, as partes iniciais serão rasgada com rapidez. Na hora dos chefes, o relógio congela e é hora do duelo. Continue descendo até onde o tempo ou HP permitirem; morra; melhore seus stats; repita e desça ainda mais.

Outro aspecto que merece atenção é a narrativa. Hell Clock tenta contar uma história através de diálogos esparsos e elementos ambientais, mas a execução deixa a desejar. A premissa é intrigante e o uso do contexto histórico de Canudos poderia ter sido explorado de forma muito mais profunda. Em vez disso, a narrativa se perde em abstrações e simbolismos que nunca são totalmente desenvolvidos. O jogador termina o jogo com mais perguntas do que respostas, e não do tipo instigante que convida à reflexão, mas do tipo que sugere falta de clareza narrativa.

Dito isso, é importante reconhecer que Hell Clock é um projeto ambicioso de um estúdio independente brasileiro. O orçamento limitado e a equipe pequena são evidentes em certos aspectos da produção. Há bugs ocasionais, problemas de balanceamento e uma falta de polimento que seria imperdoável em um título AAA, mas que é compreensível no contexto indie. O que impressiona é a ambição do projeto: poucos jogos brasileiros se arriscam a abordar temas históricos tão pesados ou a criar uma identidade visual tão marcante.

A trilha sonora do jogo também merece destaque. Composta por músicas que misturam elementos de música nordestina com sonoridades eletrônicas e atmosféricas, a trilha consegue complementar perfeitamente a estética visual. Há momentos em que a música eleva a experiência, criando uma atmosfera de tensão ou melancolia que ressoa profundamente. É um exemplo de como o design de som pode transformar a percepção de um jogo, mesmo quando outros aspectos falham. Talvez a parte sonora seja o ponto mais alto de Hell Clock. As dublagens, que por direito são primariamente nacionais, contam com atores surpreendentemente talentosos, com sotaque incluso e tudo que temos por direito.

A replayabilidade é outro ponto misto. Hell Clock oferece múltiplos modos de jogo e algumas variações nas corridas, mas não há o suficiente para justificar dezenas de horas de gameplay. Os roguelites vivem e morrem pela sua capacidade de fazer o jogador querer “mais uma corrida”, e Hell Clock não consegue manter esse ritmo por muito tempo. Após completar o jogo algumas vezes, a motivação para continuar jogando diminui consideravelmente.

Mas talvez esteja sendo injusto ao avaliar Hell Clock pelos mesmos critérios que avaliaria um Hades ou um Dead Cells. Este é um jogo que precisa ser entendido no contexto de sua produção e de suas ambições culturais. É um jogo brasileiro que fala sobre a história brasileira através de uma lente fantástica. É um projeto que se recusa a ser genérico, mesmo quando suas mecânicas não conseguem acompanhar suas ambições artísticas. Ele abre este caminho a força, através de sua parte técnica e artística.

Existe algo profundamente louvável em um jogo que se arrisca a ser diferente, que tenta trazer para o cenário global uma perspectiva cultural única. O mercado de jogos indie também está saturado de títulos que seguem fórmulas seguras, que imitam sucessos anteriores sem adicionar nada de novo. Hell Clock, apesar de todas as suas falhas mecânicas, não pode ser acusado de falta de personalidade. É um jogo que sabe o que quer ser, mesmo quando não consegue executar perfeitamente sua visão.

Para jogadores brasileiros, especialmente aqueles familiarizados com a história de Canudos e com a cultura nordestina, Hell Vlock oferece uma experiência que ressoa de forma única. Há um prazer especial em ver elementos da nossa própria cultura representados em um meio dominado por referências ocidentais e asiáticas. É um lembrete de que temos histórias para contar, que nossa cultura é rica o suficiente para servir de base para narrativas interativas significativas.

No entanto, para o público internacional, Hell Clock pode ser uma proposta mais difícil de vender. Sem o contexto cultural, o jogo pode parecer apenas mais um roguelite competente com boa direção de arte. E competente, infelizmente, não é suficiente em um gênero tão competitivo. O jogo precisaria de mecânicas mais refinadas, de mais conteúdo e de uma progressão mais satisfatória para competir verdadeiramente com os grandes nomes.

Ainda assim, há valor em reconhecer e apoiar projetos como Hell Clock. A indústria de jogos brasileira está em crescimento, mas ainda enfrenta desafios enormes em termos de financiamento, infraestrutura e visibilidade internacional. Cada jogo brasileiro que consegue ser lançado e encontrar seu público é uma vitória para todo o ecossistema. Hell Clock pode não ser perfeito, mas é um passo importante na direção certa.

Quando avalio o jogo como um todo, vejo um projeto que é maior do que a soma de suas partes. As falhas mecânicas são reais e não devem ser ignoradas, mas também não invalidam o que o jogo consegue fazer bem. A identidade visual é excepcional, a ambição narrativa é admirável, e a representação cultural é importante. São elementos que elevam Hell Clock acima de muitos outros roguelites tecnicamente superiores, mas culturalmente vazios.

Se você é fã de roguelites e está procurando o próximo grande vício, Hell Clock provavelmente não será esse jogo. Mas se você está interessado em experiências que oferecem algo diferente, que trazem perspectivas culturais únicas, que se arriscam a contar histórias menos exploradas, então Hell Clock merece sua atenção. É um jogo que pode frustrar tanto quanto fascinar, mas que nunca será esquecido facilmente.

No final das contas, Hell Clock é um jogo honesto. Não tenta ser mais do que pode, mas também não se contenta em ser menos do que deveria. É um roguelite com falhas, sim, mas também é um artefato cultural significativo. É uma prova de que jogos brasileiros podem e devem contar nossas histórias, explorar nossa identidade e contribuir para a diversidade do meio. E isso, por si só, já vale muito mais do que mecânicas perfeitamente balanceadas ou progressões infinitamente replayáveis.

Para os desenvolvedores da Rogue Snail, Hell Clock representa um primeiro passo ambicioso. As lições aprendidas aqui — tanto os sucessos quanto os fracassos — podem servir de base para projetos futuros ainda mais refinados. O talento está claramente presente, a visão artística é inegável, e a coragem de abordar temas difíceis é admirável. Com mais recursos, mais tempo e mais experiência, este estúdio tem potencial para criar algo verdadeiramente especial.

HELL CLOCK

SCORE - 8

8

BOM

Hell Clock não é o melhor roguelite que você vai jogar este ano, mas pode muito bem ser o mais memorável. E em um mercado saturado de jogos competentes mas esquecíveis, ser memorável é uma conquista que não deve ser subestimada.

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