Gaucho and the Grassland: quando estar já é o bastante

Tem jogo que chega como quem empurra a porta de supetão. Traz gráficos, promessas, uma trilha que não te deixa pensar e uma urgência disfarçada de mecânica. Você começa e já tem algo pra fazer, depois mais outra coisa, depois outra, e quando vê, está ali há quatro horas completando tarefas que não lembram nem por que começaram. É um ritmo que te leva, te consome, e até diverte, mas não permite pausa. Não permite gesto lento. E há jogos que, ao contrário disso, chegam como quem pede licença. Que não impõem, mas sugerem. Que não te aceleram, mas te chamam pra dentro. Como um convite feito de mate, vento e silêncio. Gaucho and the Grassland é isso. Um jogo que não se coloca no meio da sala com um holofote, mas que senta ao teu lado na varanda e pergunta se pode ficar.

É um jogo brasileiro, feito no sul, por gente que decidiu não esconder seu sotaque, nem maquiar sua paisagem. Em vez de buscar fórmulas que funcionam no mercado gringo, a Epopeia Games fez algo que parte de casa. E isso é bonito de ver. Não pelo folclore ou pelo regionalismo estético, mas porque é um jogo que não parece ter vergonha de ser o que é. Você não herda uma fazenda, não chega de fora. Você já é parte do mundo. E isso muda completamente a forma como tudo se apresenta. A fazenda não é um desafio. É uma extensão do teu corpo, do teu gesto, do teu tempo. Você é o Guardião dos Pampas, e esse título, por mais simbólico que pareça, carrega um tipo de responsabilidade que a gente sente nas pequenas coisas. Em cuidar dos bichos. Em escutar as pessoas. Em prestar atenção no que se move devagar.

O jogo tem tarefas, tem sistemas, tem mecânicas. Mas todas estão a serviço de um estado de espírito. Laçar uma vaca não é só acertar o laço. É olhar o ritmo do bicho, entender a direção, sentir o momento certo. Tirar leite não é clicar no balde. É encarar aquele pequeno ritual com respeito. Pescar não é sobre pegar peixe. É sobre o tempo que você fica parado esperando ele vir. E esperar, nesse jogo, não é castigo. É parte do jogo. É parte da vida.

Há também um lado mágico, que surge sem alarde. Criaturas do folclore aparecem, mas não como antagonistas ou curiosidades. Elas fazem parte do mundo, e o mundo as aceita. Uma boiadeira misteriosa guia caminhos invisíveis. Um chimarrão especial revela passagens escondidas. Certos elementos só se manifestam quando a noite cai, e a noite aqui é escura mesmo, silenciosa, com o som da gaita vindo de longe e o vento soprando como se tivesse algo para dizer. Não há grandes explicações. Não há tutorial para isso. Você vai aprendendo a ler os sinais. Vai entendendo que o jogo não quer te ensinar tudo. Ele quer que você aprenda por si. Como quem vive. Como quem cresce.

E há os personagens. Gente simples, com nome, com fala, com passado. Alguns precisam de ajuda. Outros só querem conversar. Muitos têm dor, ou memória, ou dúvida. E o jogo não força você a cuidar de todos, mas te convida a fazer isso. Te recompensa não com itens raros ou áreas novas, mas com presença. Com história. Com vínculo. Uma senhora precisa reformar a casa que o marido construiu antes de falecer. Um menino quer entender por que o avô parou de tocar. Um homem velho, sentado na beira da estrada, conta sobre um campo que não existe mais. E às vezes, essas missões não dão nada. Nada palpável. Nada que se marque no inventário. Mas dão alguma coisa que você sente. Que você guarda. Porque o jogo respeita o que não se quantifica.

Gaucho and the Grassland Teaser Data de Lançamento | Disponível na Steam em 16 de Julho

O mapa é grande, mas nunca parece te obrigar a explorá-lo. Você pode seguir em frente, abrir biomas novos, descobrir a praia, a serra, o mundo encantado. Ou pode ficar. Pode passar horas no mesmo canto, cuidando de uma cerca, alimentando os bichos, plantando árvores, decorando a casa. E o jogo nunca te julga por isso. Pelo contrário. Ele te acolhe. E talvez essa seja sua maior força. Não te cobrar performance. Não te medir por produtividade. Permitir que o jogo exista no ritmo do jogador, e não o contrário.

Os sistemas funcionam bem. A pecuária tem nuances. Os animais têm humor, têm necessidade, têm resposta. O cachorro fareja, o cavalo te leva a novos horizontes, a terra muda com o tempo. O ciclo de dia e noite afeta tudo. Há eventos dinâmicos, mudanças climáticas, detalhes que só surgem se você parar pra olhar. Mas nada disso é obrigatório. O jogo oferece, não impõe. E isso faz dele mais honesto do que a maioria dos simuladores por aí.

Visualmente, o jogo é delicado. Não tenta impressionar com tamanho, mas com detalhe. Com atmosfera. Com textura emocional. As paisagens têm profundidade, e lembra de certa forma Animal Crossing. A luz muda, o som muda, o vento muda. E você muda também. Vai ficando mais quieto. Vai andando mais devagar. Vai passando a escutar. A música aparece e some, sem aviso. Gaita, violão, cordas discretas, às vezes só o barulho do mato. E quando o som desaparece, você entende que ele não faz falta. Que o silêncio também é parte da trilha.

E aí, sem perceber, você não está mais jogando só um jogo. Está vivendo um tempo que não existe mais. Ou que talvez nunca tenha existido do jeito que a gente idealiza. Mas que pulsa ali, naquele campo digital que, mesmo com todos os limites do código, parece mais vivo do que muita cidade real.

Porque é isso, no fundo, que o jogo propõe. Não uma história pra ser zerada. Não um sistema pra ser dominado. Mas um espaço pra habitar. Um canto pra se estar. E isso é raro. Raríssimo. Porque exige uma coragem imensa não te empurrar o tempo todo. Não te distrair. Não te recompensar com brilho ou loot. Exige acreditar que o jogador pode se emocionar com uma ovelha dormindo. Com um senhor que lembra do pai. Com um silêncio de dois minutos diante de um campo florido que não serve pra nada, além de estar ali.

E o mais curioso é que, mesmo sendo tão simples, o jogo nunca soa pequeno. Ele soa justo. Coeso. Redondo. Ele não tenta parecer mais do que é. Não grita “olhem para mim, sou o jogo brasileiro do momento!”. Ele não quer ser tendência. Ele só quer ser o que é. E por isso, funciona. Porque convence naquilo que não finge. Porque emociona naquilo que não força. Porque acolhe naquilo que não cobra.

E quando a gente percebe, já se passaram horas. E não fizemos tanta coisa assim. Não desbloqueamos todos os biomas, não completamos todas as tarefas, não maximizamos as mecânicas. Mas estivemos lá. E isso basta. E isso é raro. E isso, no fundo, é o que justifica tudo.

Porque no meio desse mundo que não para, onde os jogos precisam ser plataformas, serviços, produtos infindáveis, Gaucho and the Grassland entrega só o que importa: um lugar. Um tempo. Um silêncio. Um gesto. Uma gaita tocando no fundo. Um cavalo andando devagar. Um cachorro deitando na sombra. Um velho contando uma história. Um vento que sopra. Uma pausa.

E às vezes, é tudo isso que a gente precisa.

Gaucho and The Grasslands chega para PC no dia 16 de julho.

Gaucho and the Grassland

NOTA - 8

8

Bom a Pampa!

Gaucho and the Grassland é uma experiência singular que mistura fazenda, folclore e contemplação. Um jogo brasileiro que convida à calma, ao cuidado e ao silêncio, sem pressa de terminar e sem medo de ser simples. Uma pausa sincera no barulho do mundo dos games e que vale muito a pena ser jogado em um domingo com cheiro de terra molhada.

Sair da versão mobile