
Meus prazeres secreto: golf e rabanada. Não as duas coisas ao mesmo tempo. A não ser que…. Ok, rabanada não é um amor secreto, está escancarado. Mas o gênero do esporte não veio a mim como um bigodudo casual no Nintendo 64 ou GBA. Veio antes, num disco demo de PlayStation 1. Talvez até o mesmo que continha a demo de Parappa the Rapper. O nome do jogo era Hot Shots Golf. Foram dezenas de horas perdidas naquilo. Aliás, horas bem aproveitadas. Esta franquia nunca ficou para trás, aqui estamos com ela.
Quando se fala de Everybody’s Golf, a expectativa costuma dividir-se entre dois impulsos: a busca por uma diversão imediata e o desejo por profundidade suficiente para sustentar sessões longas. Hot Shots faz uma escolha clara: prioriza acessibilidade, variedade e personalidade. O título estreia em 2025, assim como a pequena coletânea de Patapon, como uma entrada multiplataforma que tenta renovar o recado sem perder o sotaque que tornou a série reconhecível — controles simples, personagens carismáticos (exceto o rapaz que dá chiliques mais estranhos que o Seu Madruga quando puto da vida) e modos pensados para jogar com amigos. As plataformas e data de lançamento oficiais confirmam a chegada do jogo a PS5, Nintendo Switch e PC no começo de setembro de 2025.

A primeira impressão é a de um jogo que sabe o que quer ser: uma festa descontraída com regras claras. O coração mecânico permanece o clássico esquema de três toques para bater a bola — mirar, preparar a força e acertar o timing final — mas, sob essa superfície simples, há camadas de leitura de vento, relevo e efeitos especiais que pedem prática e precisão. Assim, Hot Shots entrega uma curva de aprendizado que funciona em duas velocidades: as primeiras horas são de satisfação imediata — acerte uma tacada longa, celebre a putt perfeita — e, com o tempo, percebe-se que o jogo recompensa técnica e sensação de controle mais do que truques de sorte. Muitos textos de avaliação concordam que a jogabilidade mantém esse equilíbrio entre simplicidade e profundidade. Este, é exatamente um nível acima dos jogos de Golf de Mario em termos de tecnicalidades, mas abaixo de um PGA.
Jogabilidade: intuitiva, mas com subtilezas que importam
A escolha pelo sistema de três toques tem efeitos práticos importantes: permite partidas rápidas, recria o feeling clássico da série e funciona bem em qualquer controle — seja DualSense ou mouse/teclado. Porém, o que distingue Hot Shots são os pequenos sistemas que convertem esse gesto em algo com identidade própria: golpes especiais por personagem, diferenças de estatísticas sutis, o papel dos caddies e as variações climáticas que alteram a física da bola. Esses elementos dão textura às partidas e criam motivos legítimos para preferir um personagem a outro — mais por estilo de jogo do que por diferenças flagrantes de potência.
A leitura do relevo e do vento é especialmente importante em campos com ondulações mais acentuadas. Em níveis casuais essa complexidade é gerenciável; em torneos mais avançados, exige atenção e tempo de prática. A sensação é de um jogo projetado para ser acessível às massas, mas com pequenos secredos para quem quer dominar o subsistemas e ter vantagens sobre a massa, você sabe – é como Mario Kart, sem o fator aleatoriedade e “temos que fazer todos felizes”.

Hot Shots traz um leque de modos que acomodam público variado: modos de desafio solo, um World Tour com progressão, partidas locais e online para até quatro jogadores e o famoso “Wacky Golf” — modo social que aplica regras bizarras e elementos caóticos ao campo, ideal para jogar com amigos. Esse equilíbrio entre single-player e multiplayer é o ponto forte: existe conteúdo suficiente para justificar horas de jogo, e os modos sociais devolvem ao jogo a vocação de entretenimento imediato.
A progressão é deliberadamente trabalhosa: desbloquear personagens, melhorar atributos e montar um guarda-roupa competitivo demanda tempo. Há mérito nisso — construir uma rotina de jogo — mas também frustração quando a curva se alonga demais para recompensas cosméticas ou pequenos buffs. Neste ponto, Hot Shots flerta com o erro de transformar tempo em troféu, algo que pode afastar jogadores casuais que esperam recompensa mais constante.
Visualmente, o jogo opta por um traço cartunesco elegante: personagens expressivos, campos coloridos e animações que priorizam humor e clareza sobre realismo obsessivo. Em algumas análises, a estética recebe elogios por manter o espírito da série; em outras, é apontada como menos impressionante que antecessores mais polidos — um contraste explicável pelo esforço de portar a franquia para múltiplas plataformas e por diferenças de estúdio (HYDE assumiu o desenvolvimento, em vez da tradicional Clap Hanz). Essa troca de mãos é perceptível em escolhas de direção de arte e polimento técnico.
A trilha sonora cumpre seu papel: temas leves, efeitos sonoros satisfatórios e vozes que colaboram com o tom descontraído. Há, infelizmente, repetição em algumas linhas de diálogo e uma sensação ocasional de que o áudio poderia ter mais variações para evitar a monotonia em longas sessões.
Aqui o jogo mostra mais fragilidade. Percebi constantes quedas de frame, problemas de performance e pequenos bugs que eventualmente impactam a jogabilidade — em um sistema onde timing e precisão são cruciais, instabilidades técnicas têm um peso maior do que em gêneros menos exatos. E veja bem, não joguei em uma máquina topo de linha mas ao menos roda o recente Cronos The New Dawn a 120fps ou 80fps com RT, no modo mais elevado.
A progressão alavanca itens, roupas e alimentação que alteram estatísticas e relações com caddies. Em tese, isso adiciona profundidade e incentiva experimentação. Na prática, o sistema peca por lentidão: a necessidade de “farmar” para melhorar personagens pode parecer artificial quando o jogo deveria recompensar mais diretamente a habilidade. Há espaço para ajustes — seja acelerando ganhos, seja tornando alguns bônus mais significativos — sem que a economia interna descambe para pay-to-win (não é o caso aqui, pois a monetização do lançamento tem foco cosmético e desbloqueio em jogo).

O componente social é uma das grandes vitórias do jogo. Partidas locais continuam sendo divertidas e funcionam como chamadas naturais para encontros casuais. O online traz torneios e modos competitivos, ainda que a infraestrutura precise provar sustentação no médio prazo. Dada a história da franquia e a necessidade de construir comunidade, o suporte pós-lançamento será determinante: eventos sazonais, modos adicionais e ajustes finos na balança de progressão podem transformar Hot Shots de um passatempo em um título com vida longa.
Hot Shots não disputa com simuladores como PGA por fidelidade, nem tenta ser um substituto para experiências arcade de mascotes. O título se posiciona entre o casual e o técnico: mais acessível que simuladores, mais estruturado que minigames. Comparado a outras entradas recentes da série, o jogo recupera a sensação de comunidade e leveza, mesmo que não supere todos os predecessores em polimento técnico. Em resumo: é uma proposta clara e bem executada em seus fundamentos, com problemas pontuais que merecem ser corrigidos — se o estúdio optar por ouvi-los.
Quem busca um jogo para jogar com amigos no sofá, que valorize sessões rápidas, personalização divertida e modos sociais, encontrará em Everybody’s Golf: Hot Shots um ótimo companheiro. A variedade de modos e o charme visual sustentam muitas horas de jogo, especialmente em grupo. Já para o jogador solitário com foco em competição técnica pura ou em performance impecável, o título pode decepcionar devido à progressão lenta e aos eventuais problemas de performance.
No balanço, recomendo Hot Shots para públicos que priorizam diversão acessível e sensação de progressão visual — e que aceitam pequenos solavancos técnicos em troca de um pacote de modos robusto e personalidade. Se a publisher e devs mantiverem o suporte pós-lançamento ativo — ajustes de performance, balanceamento de progressão e eventuais acréscimos de conteúdo — o jogo tem potencial de crescer significativamente em relevância.
Esta análise foi possível graças a chave de review concedida pela Bandai Namco
EVERYBODY’S GOLF: HOT SHOTS
SCORE - 7.7
7.7
Bom
Um jogo de golfe que prefere ser festa do que simulação — divertido, por vezes frustrante, e um pouco irregular onde menos se espera, mas todavia preenche o buraco de um gostoso jogo de esporte que não demanda uma faculdade de matemática.

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