Abyssus – ação, improviso e repetição em ruínas afundadas

Abyssus te coloca para baixo antes de te explicar qualquer coisa. O elevador some, o som muda, a luz perde força, e o que resta é a tarefa simples de avançar por salas que parecem ter sido montadas por um engenheiro que estudou templos e estaleiros ao mesmo tempo. Você veste o papel de Brinehunter e mergulha em ruínas movidas a brina, essa substância que dá energia a tudo e aceita ser canalizada em armas que soam estranhas, porém precisas. O jogo não se sustenta em uma longa cena inicial nem tenta amarrar o que virá com falas inspiradas. Ele confia que o loop dá conta do recado: entrar, lutar, coletar ou cair. E voltar.

Abyssus - Official Release Date Trailer

A ambientação que os desenvolvedores chamam de brinepunk é a primeira coisa que fixa. Não é só um filtro azul sobre um cenário industrial. Há textura e decisão ali. A pedra é molhada, mas as estruturas metálicas continuam de pé, com cabos grossos levando energia azulada por entre colunas e passagens. Por mais que a referência que muita gente vai lembrar é inevitável, saiba que Abyssus não tenta ser réplica de cidade submersa famosa. O tom é outro. A luz é outra. O humor é outro. É um mundo que mistura maquinaria e símbolos antigos, que tem espaço para detalhes de humor que quebram a sisudez sem estourar a bolha do clima. Você encontra itens que fariam rir num lugar menos inóspito, armas que parecem peixes mal-humorados, referências que lembram aquela vontade de não levar tudo a sério o tempo todo. Ao mesmo tempo, o conjunto se mantém coeso. A leitura do que é parte do cenário e do que é ameaça não exige esforço demais, e isso é importante para um FPS que vive de velocidade.

Velocidade não falta. O combate é a espinha dorsal e tem aquele DNA de arenas que pedem movimento constante. Em segundos você percebe que pular, dar dash e fazer o corpo girar em círculos curtos enquanto troca tiro é a linguagem que o jogo fala. A água aqui não é desculpa para lentidão. O mapa te chama para usar os desníveis, te empurra para longe de cantos confortáveis, te pune quando você insiste em ficar parado. Os inimigos aparecem em ondas, e mesmo quando não são brilhantes em comportamento, funcionam como um conjunto que pressiona por direção e volume. Uns avançam no impacto, outros mantêm distância, alguns trocam de função quando você acha que já decifrou. Em runs específicas eles ganham modificadores que alteram o equilíbrio da sala. De repente, um grupo banal resiste mais do que deveria ou aplica um tipo de dano que você não tinha visto naquela área. Esse sobe e desce de poder, do seu lado e do lado deles, é parte do tempero.

A arma que você carrega é metade do que decide o ritmo de cada run. Não há uma lista infinita. São oito armas principais, cada uma com dois modos de disparo, e isso basta para que a mesa de opções pareça cheia. O que expande de verdade é a quantidade de modificadores. Os desenvolvedores falam em 48 mods -que eu claramente não consegui testar todos – e esse número ajuda a entender o quanto dá para mexer na personalidade do equipamento. O disparo secundário é onde o jogo gosta de virar a chave. Um rifle que era disciplinado ganha espalhar de fragmentos. Uma escopeta vira ferramenta para abrir caminho com choque. A pistola pesada – minha favorita -, que parecia emergência, adquire força descomunal. Mais do que pequenas porcentagens, esses ajustes mudam o papel da arma dentro da sala.

Fora os mods de pré-run, há as bênçãos, a camada mais visível de variação durante a descida. Você entra em altares que oferecem poderes temporários e decide ali, sem tempo para teoria, como levar aquilo adiante. Em uma partida, o efeito do disparo passa a queimar e abrir caminho; em outra, salta como raio de um inimigo para o vizinho; em outra, cada tiro alimenta uma barreira que segura dano no lugar da sua vida; em outra, surgem tentáculos que cuidam do que ficou perto demais. O jogo menciona um volume grande de bênçãos, na casa de 150, o bastante para que as combinações raramente se repitam de forma idêntica. O impacto nem sempre é igual, pelo que deu para ver diante das bençãos que encontrei. Há melhorias que brilham mais na tela do que no jeito de jogar. Outras mudam de fato a sua postura e permitem atravessar biomas com uma segurança que você não tinha. Como o sistema também afeta os inimigos, as mesmas bênçãos podem virar aposta alta dependendo do que a sala joga de volta.

Quando você acerta, sente que o kit que montou é sólido. Quando erra por detalhe, a memória do quase serve de guia para a próxima. Espalhadas no caminho estão lojas, baús que pedem chave e pontos de respiro que te permitem gastar o ouro que caiu dos adversários. Ouro é para agora, não atravessa a morte. O que atravessa são os fragmentos de alma. Eles alimentam a árvore de habilidades no lobby, onde você investe em vida, recarga, desbloqueio de novas opções e pequenos aumentos que não quebram o jogo, mas somam. Esse quadro de progressão torna as tentativas curtas menos amargas. Mesmo quando a run termina cedo, você volta com um punhado de material para construir alguma coisa.

Os chefes amarram cada bioma com encontros de várias fases. A diferença entre o primeiro e o que fecha a área costuma ser grande, a ponto de você achar que está diante de algo simples e descobrir, no meio, que o padrão mudou e que o espaço que você achava seguro já não é. Por muitas vezes eu tive que suar mais para derrotarum mid-boss a um chefe de final de nível, que em outra run, pode surpreender pela escala devido as suas escolhas. Não há como trazer uma mesma estratégia de memória. Você chega com o que a run te deu. Se as bênçãos conversam, se o disparo secundário foi escolhido com cuidado, se o charm certo caiu, a luta cresce do jeito certo. Se a combinação não casou, o jogo não alivia. Esse desenho dá sentido à improvisação e deixa a vitória com gosto de construção, não de repetição.

Há ainda o pedaço que troca classe fixa por escolha direta. Você seleciona uma habilidade de uso com tempo de recarga e isso basta para moldar um papel sem precisar de arquétipo rígido. Uma granada para abrir espaço, um congelamento para recobrar o controle, uma torreta para segurar um lado enquanto você limpa o outro. Em partidas com amigos, o efeito é imediato. Quatro pessoas podem se distribuir de forma intuitiva e cobrir as lacunas umas das outras. A comunicação ajuda, mas não é obrigatório fazer reunião antes de mergulhar. Depois do tutorial, o fluxo para formar grupo é simples. Dá para adicionar amigos, procurar sessões abertas ou criar a sua. Escolhe-se o tamanho do time, e o jogo cuida do resto. O co-op muda a escala da briga, e a sensação é que Abyssus encontra seu melhor quando essa bagunça tem mais de um par de mãos. Nem tudo é perfeito no equilíbrio entre modos, porém. Jogar sozinho pode ser punitivo em picos específicos. Em runs onde os modificadores dos inimigos empilham o tipo de dano que o seu kit não responde bem, a barreira aparece mais cedo. É um ponto que mereceria ajuste fino para o solo, principalmente no início, quando a curva de evolução se mostra bem lenta.

Outro ponto crítico é a variedade de inimigos. Eles têm carisma visual e cumprem a função de te cercar, mas nem sempre te obrigam a mudar a forma de jogar. Fora as salas com modificadores que realmente alteram o jeito como a troca acontece, a maioria das diferenças de postura vem do seu equipamento, não do adversário. Do lado das bênçãos, a crítica vai na mesma direção: certas opções são distintas no efeito e parecidas no resultado prático. Ainda assim, o volume total de combinações possíveis segura o interesse. O prazer de achar um trio que encaixa é real, e quando isso acontece o jogo vira aquela maratona rápida em que você atravessa duas áreas em sequência com a sensação de ter achado um caminho próprio.

A narrativa existe como pano de fundo. Há registros espalhados, diários de quem viveu ali, fragmentos que tentam dar cor para a civilização afundada, para a origem da brina, para o chamado que move os Brinehunters até essa parte do oceano. Falas formais sobre uma missão que investiga um sinal eletromagnético dão o contorno necessário. O jogo não insiste em te conduzir por capítulos tradicionais. É mais um acervo do que uma história linear. Para o tipo de proposta que Abyssus abraça, isso serve. Quem quer contexto encontra. Quem quer foco no combate não é travado por narrativas que interrompem as partidas.

Fica a pergunta sobre onde Abyssus se apoia quando o brilho da novidade passa. A resposta não está em uma invenção de estrutura, mas no acerto do que já existe. O tiro é firme e responsivo. O movimento conversa com quem gosta de arena. A personalização abraça tanto quem vive de tentar builds quanto quem só quer trocar uma peça e ver o efeito. O mundo tem cara própria, não por ser ruidoso, e sim por juntar escolhas que raramente andam juntas desse jeito. O humor aparece no momento certo. Os chefes entregam variação suficiente para ser lembrados. E o modo cooperativo amplifica o que funciona.

Do lado das ressalvas, vale repetir sem rodeio: variedade maior de padrões nos inimigos comuns faria bem. Balanceamentos pontuais no solo diminuiriam a sensação de uma barreira que te impede de avançar em runs ruins. Algumas bênçãos poderiam mexer mais profundamente no estilo de jogo. Nenhum desses pontos desmonta o conjunto. Eles só indicam onde a equipe pode lapidar sem trair a própria proposta.

No fim das contas, Abyssus oferece exatamente o que promete quando você lê as linhas pequenas: um roguelike em primeira pessoa rápido, com identidade visual marcante, arsenal personalizável e progressão que respeita seu tempo. O jogo convida para sessões longas de “ok, vou só mais uma!”, brilha em grupo e continua interessante no solo para quem tem paciência com o gênero. Não força metáforas para se vender, não se perde em explicações, e não se esconde atrás de um discurso sobre profundidade que não aparece no controle. Quando você percebe, está pensando na próxima combinação de arma, mod, bênção e habilidade que quer testar. A partir daí, o fundo do mar deixa de ser ameaça e vira rotina que chama pelo nome.

Abyssus chega ao PC via Steam em 12 de agosto. Para quem sente saudade de tiro com corpo em movimento e para quem gosta de construir poder run a run, tem mergulho aqui para muitas noites.

Abyssus

NOTA - 8.2

8.2

Mergulhe sem pensar!

Abyssus entrega um roguelike em primeira pessoa intenso, com combate rápido, arsenal personalizável e atmosfera brinepunk bem construída. Brilha no co-op, mas mantém desafio sólido no solo, mesmo com algumas repetições de inimigos e picos de dificuldade. Um mergulho que recompensa tanto pela ação quanto pela variedade de combinações possíveis

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