Mortal Kombat Legacy Kollection traz Memória, Museu e a Tortuosidade do Tempo

Ao acessar Mortal Kombat Legacy Kollection, é difícil não se encantar (do ponto de vista de um cara de 30 ou 40 anos, ao menos) — o produto foi meticulosamente trabalhado, embrulhado como uma torta riquíssima em confeitos, coberturas e tributária à nostalgia visual. A interface esbanja esmero: desde as vinhetas de apresentação dos estúdios até as transições entre menus que evocam o radicalismo do MK3, tudo exala respeito ao legado e conhecimento profundo do universo. A estética é impecável, e nenhum detalhe escapa à curadoria de Eclipse Digital, responsável por outros projetos arqueológicos similares.

Entretanto, essa vitrine magnificente esconde um dilema: a massa dessa torta é feita de ingredientes antigos — datados, frágeis e, por vezes, até “desagradáveis” para o jogador médio acostumado ao ritmo e aos padrões modernos. Mortal Kombat Legacy Kollection é antes de tudo um museu jogável, um trabalho arqueológico impressionante no quesito preservação, mas que não consegue mascarar os limites dos jogos originais, especialmente no “núcleo jogável”.

Trabalho arqueológico

Tal como outras homenagens produzidas pela Digital Eclipse, a coletânea resgata preciosidades e contextualiza, porém o grande público invariavelmente se apega apenas à “parte jogável” — a qual, para os olhos de hoje, não envelheceu bem, e isso pode fazer com que esse título só sirva para um propósito. Limitações técnicas, vícios mecânicos e um ritmo de IA oriundo da década de 1990 são problemas tão presentes agora quanto em seu lançamento original. E quem aponta isso não é um espectador casual, mas alguém que foi fã intolerante dos Mortal Kombat klássicos naquela época — ciente das virtudes e dos tropeços históricos.

Tente o port de Ultimate MK3 no Game Boy Advance…

O duelo contra a CPU

Para aqueles cuja diversão se resume a enfrentar a CPU, não há escapatória: todos os “vícios malditos” da máquina se mantêm intactos nas dezenas de ports disponíveis. Os padrões de resposta injustos, a IA que lê comandos antes mesmo do jogador concluir o movimento e a sensação de que cada ação é sobrepujada por reações automáticas provocam mais fúria e incredulidade do que desafio satisfatório. Como relatado em meu vídeo anterior ao revisitar MK2, a CPU responde a qualquer reação inicial do jogador — quase “prevendo” seus planos e punindo qualquer tentativa fora da rotina. Nos jogos oriundos do MK3, esse problema é agravado pela velocidade: ação frenética combinada com controles modernos, maiores e menos intuitivos, gera sensação de desajeitamento. Jogando num DualSense ou Steam Deck, parece tentar acertar uma bola de ping pong com o cabo de um pirulito — os controles enormes de hoje em dia sucumbem à necessidade de algo menor e simplificado em mãos.

Impecabilidade e nostalgia vibrante

Se há um ponto acima de qualquer crítica, é a apresentação visual. A estética foi estudada a fundo — as vinhetas, os filtros CRT, as “marquees” simulando fliperama e as transições entre telas não só recriam, mas elevam o tom soturno, radical e juvenil marcante dos anos 90. O produto comunica, desde a tela inicial, que não se trata de “só mais uma coletânea”, mas uma experiência museológica genuína, feita para revisitar o símbolo máximo da cultura arcade.

Krypta: museu interativo e celebração dos bastidores

No menu principal, a Krypta é um dos grandes trunfos da coleção. Em vez de mero extra, é um museu digital com documentários divididos em partes e organizados em fluxogramas, registros de making of, entrevistas, imagens dos finais, biografias de personagens, conteúdo dos bastidores dos quatro primeiros MKs. Cada seção é acompanhada de uma porcentagem de progresso, incentivando a exploração completa. Mesmo para fãs casuais — já saturados dos bastidores de MK1 — o acervo oferta materiais sobre MK2, MK3 e MK4, ampliando o valor histórico e transformando o pacote numa fonte de curiosidade e exploração que consome horas. Por vezes, o jogador abandona a jogabilidade em prol do mergulho profundo — a coletânea assume papel de museu, e o gameplay vira quase trilha casual. Eu diria até, que, este é o motivo real de você estar rodando este game.

…aí eu aluguel Faces da Morte e…

Qualidade de vida moderna

A coleção brilha ao integrar cheats clássicos retirados das ROMs originais, todos ativáveis por um menu intuitivo. Listas de golpes e fatalities ficam à mão ao lado da tela, facilitando execuções rápidas. O modo treino é robusto: permite praticar com qualquer personagem, realizar fatalities com um só botão, aumentar tempo de finish, utilizar save state e rewind — recursos que democratizam o acesso tanto para iniciantes quanto para veteranos. Tudo é desenhado para modernizar sem trair demais a experiência clássica.

Contudo, pequenas escolhas de interface incomodam: para acessar o menu durante a batalha é preciso segurar o botão por três segundos, criando um ritual desnecessário que fere a agilidade do gameplay em situações críticas. Também não me agrada que o botão de rewind de gameplay é o L3, entre outras pequenas decisões.

Decisões estranhas afetam a justiça do pacote. Certos ports participam do acervo enquanto experiências definitivas são ignoradas: MK Gold, a versão definitiva de MK4, está inexplicavelmente ausente. Enquanto isso, foi incluído Mortal Kombat Advance — considerado um dos piores ports já feitos, infame entre fãs e especialistas pela jogabilidade precária e adaptações grotescas. Essas omissões levantam dúvidas sobre prioridades curatoriais e diálogo com o público fiel.

No escopo das configurações opcionais, há surpresas positivas escondidas. Em MK4, por exemplo, é possível melhorar as texturas além da versão arcade e até em relação ao Dreamcast. Para muitos, mexer nas opções técnicas pode parecer “traição” à fidelidade original, mas modernizar o aspecto visual é uma escolha válida e bem-vinda — especialmente para clássicos oriundos do PS1, cuja aparência envelheceu mal. Não tenho problema em mexer nesses territórios imaculados para alguns. Tais possibilidades deveriam ser mais evidenciadas, e não relegadas ao subsolo dos menus avançados, pois podem alavancar o prazer de jogar sem sacrificar memória afetiva.

A atração principal deste pacote

A experiência para o fã e o jogador moderno

Mortal Kombat Legacy Kollection é, acima de tudo, um convite à revisitacão afetiva, mas não necessariamente à diversão contemporânea. Para veteranos, é o abraço da nostalgia; para o jogador médio, é o confronto com limitações mecânicas, escolhas curatoriais duvidosas e polêmicas entre evolução e fidelidade. Fica evidente que o pacote celebra mais o passado do que o presente, cabendo ao público escolher entre curtir o museu ou encarar as rugas dos clássicos no campo de batalha.

Trata-se de uma experiência dividida: triunfa como projeto museológico, emociona como celebração do passado, mas naufraga em oferecer jogabilidade plenamente satisfatória ao público contemporâneo. Limitações mecânicas, escolhas curatoriais duvidosas e decisões de interface criam barreiras para quem deseja desafio moderno ou fluidez de qualidade. A torta é bela — porém sua massa envelheceu. Vale para fãs, historiadores e curiosos; é passagem obrigatória para aficionados de MK, mas apenas uma curiosidade fragmentada para jogadores ocasionais. Na dúvida, fique com a jogabilidade de MK9 em diante, sabendo tirar algumas espinhas (práticas predatórias da Warner) fora.

MORTAL KOMBAT LEGAY KOLLECTION

SCORE - 6.6

6.6

OK

Uma coletânea visualmente impecável, repleta de extras históricos e conteúdo de museu, mas com jogabilidade datada, decisões curiosas de curadoria e limitações mecânicas difíceis de relevar para quem não viveu o auge da série. Indicado para fãs e colecionadores, menos capaz de encantar jogadores modernos em busca de desafio justo ou controle preciso.