Patapon 1+2 Replay traz de volta o que a Sony deveria estar fazendo hoje: jogos inventivos | Review

Na reta final dos anos 2000, surgiu um jogo que metia o dedo na cara da ansiedade do ansioso; era esquisito e não existia nada parecido com ele.
O Game Boy Advance e o PSP talvez, para mim, sejam os melhores portáteis de todos os tempos. O da Nintendo trouxe, nos anos 2000, uma descarga de jogos que pareciam títulos da segunda metade dos anos 90 e jogos 2D que lembravam os do PlayStation; e o PSP é o console da Sony que apresentou muitos jogos experimentais, não sendo meramente apenas uma espécie de PS2 com desconto.
Um desses jogos é o Patapon, que nasceu e morreu na plataforma, rendendo duas sequências. Para minha surpresa, Patapon retorna à modernidade, mas não em forma de Ratatan — aquele jogo com alguns desenvolvedores do original, que está colorido demais e cuja demo eu não gostei nada. Não, estamos falando de uma remasterização do primeiro Patapon e do segundo.

Se a Sony não está interessada em revirar seu baú por interesses próprios, a Bandai Namco está, pegando emprestado os títulos para apresentá-los a novas pessoas e, quem sabe, continuar o legado iniciado em 2007.
A coisa mais próxima que posso descrever rapidamente de Patapon seria “tower defense de ritmo”, mas isso afastaria muitos curiosos — eu mesmo, inclusive. Em um plano 2D lateral, com scroll, você avança derrotando tribos inimigas, animais enormes e ameaçadores, ou pequenas presas, para coletar recursos e sobreviver às próximas fases, cada uma pedindo algo ligeiramente diferente.
Para avançar, é preciso executar uma sequência de quatro pressionamentos de botão, formando um pequeno batuque, após o qual você ouve o mesmo compasso como resposta dos simpáticos bichinhos. Por exemplo, para andar um pouco para frente, você deve pressionar quadrado, quadrado, quadrado e círculo, tudo isso dentro do compasso 4/4. Para atacar, a sequência é outra, tão simples quanto a anterior. Ao longo do jogo, você coleciona mais cânticos para se defender ou atacar inimigos menos comuns.
O grande segredo está no momento em que você ouve, logo após executar a sequência, a resposta dos Patapons. Nesse instante, você observa o resultado enquanto se prepara para pegar o bonde do próximo compasso. A leitura precisa ser ágil, porque são comandos que podem custar caro se você se enrolar na canção e errar sua vez, ou se tocar um cântico que não o favoreceu desta vez. Resta observar o resultado, mas sempre se preparar para tomar a próxima decisão, numa música que nunca para — diferente de jogos de ação, onde você determina seu próprio ritmo.

Outra parte genial é o fato de o jogador de Patapon ficar tão focado que chega a “pedir licença” aos efeitos sonoros que acontecem sobre a cama musical que dita o ritmo de seus dedos.
Esse microcosmo de mecânica cria algo genial e pouco visto em outros jogos, ao que me consta. É como dizem: o tempo é a entidade mais paciente, ou algo como o “Senhor da Sabedoria”. Não adianta apressar as coisas, mas também não há informação que deva ficar esperando, pois Patapon flui como um rio imparável. Existe o ônus de que isso pode vir com pequenos sabores fragmentados de ansiedade, mas tenho quase certeza de que é possível educar algumas pessoas em suas sensações de antecipação e imediatismo, pelo menos enquanto seu tempo for gasto com o jogo.
O primeiro jogo Patapon é simples, mas, ao contrário de muitos grandes lançamentos de franquias, seu título de estreia já oferece um resultado quase imutável, e suas sequências são leves iterações com melhorias de qualidade de vida e pequenos floreios visuais.
É o caso de Patapon 2, que aprofunda ainda mais sua própria mitologia tola, doce e simples. No sucessor espiritual de Patapon, Ratatan — desenvolvido por ex-membros da equipe original do PSP — pude jogar a demo, que não me agradou pela total descaracterização visual e sonora, além de introduzir mecânicas que pareciam interessantes no máximo apenas no papel.
Os Patapons são criaturinhas de silhueta preta, representadas por olhos no lugar das barrigas — e isso já basta do ponto de vista visual. No som, temos cânticos dessas tribos ajustados para um pitch mais elevado, acompanhados de lanças, machadinhos e arcos a fim de demolir estruturas e tribos inimigas que surgem em seu caminho. A forma como isso se mistura — a fusão artístico-audiovisual — traz uma experiência marcante, com partidas que duram o tamanho do seu bolso e são fáceis o suficiente para pessoas que não são tão engajadas em jogos.
Seu exército cresce à medida que você compra mais soldadinhos e coleta armas em campos de batalha. Confesso que a repetição de farmar dinheiro e recursos em campos mais pacíficos acaba deixando a experiência cansativa e compromete a progressão de quem deseja jogar por horas.
O remaster, chamado Patapon 1+2 Replay, como pode imaginar, traz refinamentos na imagem, ajustes sutis na parte sonora, mas, no geral, não foge tanto do original de PSP. Concessões tiveram de ser feitas: alguns elementos, como tambores-entidade, exibem em seu design os símbolos padrão do PlayStation. Agora, estamos falando de um jogo em que a Bandai Namco “pega emprestado” o catálogo da Sony para publicá-lo em outras plataformas — o que gera certo desconforto, mas sempre achei inválido esse papo de “esse jogo tem a cara da plataforma X e não combina fora dela”.
Se o primeiro Patapon já serve como uma tremenda diversão que se distancia de narrativas cansativas e sistemas profundos, Patapon 2 melhora substancialmente. Porém, repito: aproximei-me da base estabelecida do primeiro jogo ocupando algo como 90%, deixando apenas 10% para inovações. Logo, a sequência parece mais recomendada para quem deseja praticamente “mais do mesmo”, com artes mais bonitas, mas seguindo 100% suas convicções visuais.
Na sequência, temos melhorias de qualidade de vida, e minha favorita ocorre no modo Fever: quando alcançado, mas tentado ser mantido de forma descuidada no ritmo, um aviso sonoro de sirene soa no compasso, alertando que, se o jogador persistir na falta de capricho, perderá seu combo — aquele que torna os Patapons mais fortes e agressivos.
O terceiro jogo, que se aprofunda ainda mais nessa viagem tribal, fica de fora do remaster; mas os dois primeiros já oferecem um pacote robusto de diversão.
Minha grandiosa queixa ao jogar o título no Steam Deck foi o sentimento de que esse Replay possui um input lag do qual eu não conseguia me livrar. Depois de gastar 20 minutos experimentando, consegui apaziguar a situação — e olha que eu nem estava jogando com gamepad Bluetooth. Dica para quem estiver jogando via emulador de PSP: evite controles Bluetooth, pois será impossível manter o modo Fever; você falhará toda vez que chegar nele. Eu achava que era falta de processamento do hardware, mas, na verdade, era input lag de um dispositivo sem fio.
Voltando a Patapon 2: agora o modo Fever pode ser alcançado após cinco êxitos, em vez de dez, como no jogo anterior. Esse fato já elimina boa parte das minhas mágoas em relação ao primeiro jogo, mas prepare-se, pois ainda permanecem as fases permanentes de farmar insumos e dinheiro, assim como farmar em cima de animais ariscos ou não.
Alguns modos adicionais foram incluídos, como o multiplayer, já presente no original; mas ainda não pude testá-lo com outras pessoas, já que esta análise é fruto de uma chave concedida pela Bandai Namco para acesso antecipado, e quase ninguém estava disponível ao mesmo tempo para jogar os modos multiplayer.
Patapon 1+2 Replay é uma delícia nostálgica que representa um período muito fértil de experimentações portáteis, um luxo raro hoje em dia — e, com certeza, deveria ser jogado por mais pessoas.
PATAPON 1+2 Replay
SCORE - 8.1
8.1
Muito Bom
Não se deixe enganar pelos sons e gráficos fofinho, pois Patapon pode te transformar em um zumbi




